A questão que está posta, se querem saber, já nem é saber quem vai vencer, mas se o eleito vai conseguir governar. Com qual maioria?

Publicada: 17/05/2018 - 8:09


Os dias no país andam mais perigosos do que parecem. A questão, se querem saber, já nem é quem vai vencer a disputa de 2018. Mas saber se o vitorioso consegue governar. O buraco pode ser bem maior do que percebemos agora.

Os candidatos ditos “viáveis” fogem dos temas polêmicos como o diabo foge da cruz. Eles vão se enfileirando sem que saibamos por que, afinal de contas, querem governar o Brasil. Haverá apenas 37 dias de campanha no rádio e na televisão, contra 90 em 2014. Uma ascensão meteórica nos moldes de João Dória, em São Paulo, em 2016, é absolutamente improvável. Na capital paulista, assistiu-se a um fenômeno de características absolutamente locais. Candidatos precisam de ideias-força. Mas quais?

Há outro fator: atende pelo nome de Lula. Todos sabem que o petista não será candidato ainda que queria. Por enquanto ao menos, o PT joga o seu jogo. Percebe que o processo político se torna refém de sua escolha. Quando o ex-presidente não está na lista, o que dispara é o número de votos inválidos: brancos e nulos.

Os efeitos da indefinição já se fazem sentir na economia. Já não há quem aposte no crescimento de 3% neste ano. O que tinha todas as características de uma retomada consistente do crescimento começa a perder força na indefinição política. O dólar bateu nos R$ 3,68 por causa da economia americana? Foi um fator. Mas a causa está nas urnas. Prudente, o Banco Central resolveu botar um pé atrás e manteve a taxa de juros em 6,5%. A razão é simples. É muito fácil o câmbio virar inflação. Ainda que a nossa esteja abaixo do centro da meta, mais importante, nessa hora, é mostrar prudência.

Ao destacar as qualidades do governo Temer, Mauro Leos, chefe de análise de risco soberano para a América Latina da agência de rating Moody’s, observou: “Ele é um político de operação. Se há alguém que sabe lidar com o Congresso, é Temer.” Pois é. Dos nomes postos, quem teria igual habilidade?

O futuro Congresso tende a ser mais fragmentado do que este que aí está. Por que afirmo isso? Um partido que conseguir eleger 50 deputados — o que era antes coisa de legenda apenas média —, acreditem, terá conseguido um resultado formidável. Ocorre que são necessários 308 deputados e 49 senadores para aprovar uma emenda constitucional. Uma Lei Complementar só passa com maioria absoluta — metade mais um do total de parlamentares: 257 deputados e 41 senadores.

Se vitorioso um dos candidatos que lideram a disputa quando Lula não está na lista, a pessoa em questão tenderia a somar deputados que se contam nos dedos das mãos. Ainda que sua legenda viesse a ser inflada pelo adesismo próprio dessas horas, ficaria a uma distância gigantesca do número necessário para governar com alguma estabilidade. Acrescente-se ao cenário mais algum tempo de lava-jatismo a criar instabilidade no Parlamento, e a gente tem a receita do capeta.

Mais: não fossem os esforços para desestabilizar o governo Temer, que ainda não cessaram, o futuro presidente pegaria um país com vontade de crescer, em ascensão. Em vez disso, vemos temor e desaceleração do ritmo. Contar com uma maioria expressiva no Congresso será vital ao futuro mandatário, a menos que pretenda brincar de Napoleão de hospício.

Em outros tempos, poderíamos apostar no processo eleitoral para soldar dissensões. Desta feita, a tendência é que acirre posições e extreme radicalizações. Disputa-se eleição com a sensação de que a política está morta. O único otimista é Sérgio Moro ao discursar em Nova York.

Eleger-se presidente em 2018 será certamente coisa difícil. Mas, acreditem, mais difícil ainda será mandar a governabilidade a partir de 1º de janeiro de 2019.

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