Bolsonaros somam 62 anos de vida pública; tente achar algo de relevante em prol do país; e a misoginia do “comedor de gente”

Publicada: 12/01/2018 - 8:26


Jair Bolsonaro transformou a violência retórica num ativo político. Quando confrontado com o inexplicável, ele faz o quê? Ora, sai atirando. É o que o seu público quer ler e ouvir. Se deu certo com Donald Trump, pensa a turma, por que não com o “Bolsomito”? A família transformou a militância contra a esquerda, contra o petismo em particular, numa chanchada asquerosa. Ainda que, ora vejam!, em alguns quereres, o deputado esteja bem mais perto dos petistas do que supõem os idiotas. Também ele se opunha até ontem às privatizações, à reforma da Previdência e à reforma trabalhista. Não há Paulo Guedes que consiga mudar a história.

E daí que uma tal Wal, que mora na Vila Histórica de Mambucaba, a 50 km do Centro de Angra dos Reis, figure como funcionária do seu gabinete em Brasília? A mulher presta serviços domésticos na casa de veraneio que o parlamentar tem na região. Seu marido é o caseiro do imóvel. Ela custa R$ 1.351,46 por mês à Câmara. Segundo o patriarca dos Bolsonaros, Wal é funcionária regular do seu gabinete. E ele explica qual seria a sua função: “Ela reporta a mim ou ao meu chefe de gabinete qualquer problema na região”.

Convenham: como ser um bom deputado sem saber o que se passam em Mambucaba?

Ah, agora está explicado.

O homem que diz querer governar o Brasil tem de apelar a um subordinado para saber que diabos Wal faz em seu gabinete, onde está lotada há… 15 anos! A resposta é encantadora:
“Peraí, ela fala com o chefe de gabinete. Como é que eu vou saber? Se eu mantiver um contato diário com meus 15 funcionários, eu não trabalho”.

Caso o homem se eleja presidente, convém não fazer perguntas difíceis sobre os subordinados:
“Como é que eu vou saber? Se eu mantiver um contado diário com meus ministros, eu não governo o Brasil…”

É patético. É constrangedor.

Boca na botija
Bolsonaro sabe que foi pego com a boca na botija. Até os seus fanáticos têm claro que o patrimônio de R$ 16,7 milhões não é compatível com o rendimento conhecido da família — refiro-me aos respectivos salários parlamentares. Uma linha de especulação é saber se o deputado usa em benefício pessoal regalias que pertencem ao mandato, que deveriam estar voltadas para o exercício de sua função.

Ele admite, por exemplo, sem pejo, que recebe o auxílio-moradia, embora tenha casa própria em Brasília. Não, querido leitor, não é ilegal. Mas decida se é decente. Se você entrar no site da Câmara, encontrará o seguinte sobre o tema:
“O auxílio-moradia é pago aos deputados que não ocupam apartamentos funcionais. Quando os 432 apartamentos funcionais foram construídos, na década de 1970, a Câmara tinha 420 deputados. Com a redemocratização nos anos 1980 e a criação de novos estados na federação, a representação parlamentar cresceu, chegando a 513 deputados. Por isso, há mais deputados do que apartamentos funcionais.
O valor atual do auxílio-moradia é R$ 4.253,00. (…) Pode ser pago nas modalidades ‘reembolso’ e ‘em espécie’.”

Bolsonaro, no caso, recebe em espécie. Como se nota, deu um jeitinho de aumentar o próprio salário.

Comedor de gente e misoginia
Acuado por sua própria obra, o chefe do clã decidiu conceder uma entrevista-0fensa aos repórteres Camila Mattoso, Italo Nogueira e Ranier Bragon, da Folha. O trabalho jornalístico resultou excelente. Os repórteres foram firmes e objetivos e deram ao entrevistado a chance de dizer coisas como esta, quando indagado sobre a destinação que dá ao auxílio moradia:

“Como eu estava solteiro naquela época, esse dinheiro de auxílio moradia eu usava pra comer gente. Tá satisfeita agora ou não? Você tá satisfeita agora?”

O adjetivo “satisfeita” indica que Bolsonaro respondia a uma questão formulada por Camila Mattoso, a mulher do trio. O deputado não gosta da chamada “ideologia de gênero”, mas parece ter um problema quase ideológico com o gênero… feminino! Ele é particularmente desagradável com as mulheres, ainda que, como se sabe, considere que só as bonitas, segundo suas próprias palavras, mereçam ser estupradas…

“Comer gente”? Não sendo confissão de canibalismo, suponho que esteja se referindo àquela questão bíblica, vocês sabem, “aquilo naquilo”… Ah, seria grosseiro, não é mesmo?, ele dizer “comer mulher”. Quando menos se espera, Bolsonaro se deixa influenciar pela ideologia de gênero!!! Agora ele come gente! Sem discriminação de gênero! Até Jean Wyllys, seu oposto homólogo, aprovaria a expressão.

Um primor da estupidez
Leiam esta sequência:

Vamos falar do seu patrimônio. O senhor estava criticando o fato de a Folha ter divulgado o valor do patrimônio do sr., da sua família.
Peraí, você tem que divulgar é o meu patrimônio. Daqui a pouco vão querer pegar minha mãe, com 91 anos de idade. Começar a levantar a vida dela.

Pegamos só dos parlamentares.
Peraí. Você vai pegar da minha mãe daqui a pouco. Meu pai já morreu. dos meus irmãos. Ok? Tem que pegar o meu. Esquece meus
filhos. Se o meu filho assaltar um banco agora ou ganhar na Mega Sena, é problema dele, não é meu.

Como é que é?

Três filhos do deputado são políticos, ora bolas! Eduardo é deputado federal há três anos; Flávio é deputado estadual há 14, e Carlos é vereador há 17. São filhos de Bolsonaro, sim, mas são homens públicos. Ainda que não fossem, note-se, havendo a suspeita ou evidência de que familiares de políticos atuam para desviar dinheiro público ou lavar recursos ilícitos, seu patrimônio e seu ganho passam a ser de interesse jornalístico.

O entendimento de Bolsonaro, o “comedor de gente”, é outro.

Ah, sim: o deputado disse aos jornalistas que pretende vender a sua casa em Brasília para, então, usar com mais, digamos, legitimidade o “auxilio moradia”. Se ele o fizer, certamente será bom para ele. Poderá aplicar o dinheiro do imóvel, embolsar o resultado é morar às nossas custas, embora a família seja dona de 13 imóveis.

Leiam a entrevista. Há uma sequência que merece atenção. Em 1999, Bolsonaro disse ser um sonegador. Na conversa com os jornalistas, afirma que estava apenas “reverberando” uma indignação popular. Alguém já viu o povo em marcha a pregar sonegação?

É o cara que quer ser presidente do Brasil.

Imprensa
Leiam esta sequência:

Como presidente o sr. vai manter essa postura de não responder a imprensa?
Respondo a imprensa séria.

Qual imprensa? O sr. já criticou O Globo, já criticou a Folha, já criticou a TV Globo...
Tem imprensa que eu elogio.

Quem por exemplo?
No Nordeste, quase todos os jornais do Nordeste, quando eu vou lá, eu sou tratado com dignidade. No Nordeste, eu sou tratado com dignidade. Estive agora no ‘A Crítica’, em Manaus, pergunta, resposta, numa boa, tranquilo. E a matéria saiu com o que foi tratado no dia anterior.

Como deputado e se for presidente, o sr. acha que pode escolher a quem responder e quem não responder?
Se você perguntar da Folha, vou falar ‘fake news, passe pra outra’. Pode ter certeza.

É essa a postura que o sr. vai ter?
Para vocês da Folha, vai. ‘O Globo’ não. ‘O Estado de S. Paulo’ não. É o meu entendimento. Eu respondo a quem eu quiser.

Como presidente da República?
Eu respondo a quem eu quiser. Vocês da Folha eu não respondo. Vocês da Folha desistam. Não precisa ter aquele comitê de imprensa no Planalto. Sai fora que vocês não vão ter resposta nenhuma.

Então, por que o sr. recebeu a gente aqui hoje?
Vocês estavam aqui na frente, eu até considerei. Querem conhecer a casa não? Filma a casa aí.

Rascunho da cópia
Bolsonaro é patético. O “comedor de gente” está tentando seguir os passos de Donald Trump, que toma como inspiração. Bem, os valores da sonegação certamente são bem diferentes, rsss…

No dia 11 de janeiro do ano passado, na primeira entrevista coletiva depois de eleito, Trump impediu o jornalista Jim Acosta, da CNN, de fazer uma pergunta. Segundo disse, a emissora o perseguia e publicava “fake News” a seu respeito. No caso, a rede havia divulgado informações sobre a interferência do serviço secreto russo nas eleições americanas. Nota: James Clapper, o então demissionário chefe da Inteligência Nacional, havia admitido cinco dias antes tal interferência. E de dois modos: por intermédio de hackeamento propriamente (invasão de computadores) e da disseminação de “fake news” em favor de Trump, que era justamente aquele que acusava os adversários de produzir… “fake News”.

O moralismo rombudo é a peça de resistência de Bolsonaro. Mas a casa começa a cair. Ou melhor: as casas! São 13! É imóvel demais para quem não tem outra atividade remunerada que não a política. E, entendo, resta demonstrado que só um milagreiro conseguiria, mesmo somando a renda líquida dos quatro políticos, amealhar um patrimônio multimilionário. Qualquer um que lide com números sabe que tem caroço nesse angu.

Juntos, os Bolsonaros já somam 62 anos de vida pública. Corra para o Google e tente descobrir qual é a grande contribuição desses varões de Plutarco ao Brasil e aos brasileiros. Tente achar um projeto relevante, de iniciativa de ao menos um do quarteto, que tenha sido aprovado.

Não há.

Mas a família já amealhou R$ 16,7 milhões só em patrimônio com sua violência retórica mambembe.

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