Câmara retoma reforma na 3ª. Terá coragem de ignorar alarido sem gente e fazer o certo?

Não haverá financiamento por empresas em 2018; o fundo minimiza os riscos ao menos; protestos não levam ninguém às ruas

Publicada: 28/08/2017 - 7:59


A Câmara retoma nesta terça a votação da reforma política. As vigarices intelectuais vão se multiplicando em escala geométrica, embora, na prática, exista um divórcio entre essas “vanguardas do não a qualquer coisa” e a população real. Esta expressa seu desconsolo quando indagada sobre isso e aquilo em pesquisas. Mas também tem lá seu jeito estranho de exercitar a esperança. Não adianta dar uma de Poliana. Pesquisa Estadão/Ipsos, divulgada neste domingo, submeteu 27 nomes a um teste de popularidade. Lula ficou em quarto, com 32% de aprovação. Os três primeiros (Sérgio Moro, Joaquim Barbosa e Luciano Huck não são políticos). Sim, o petista é rejeitado por 66%, mas isso o coloca em 11º lugar no ranking negativo. Escrevi a respeito. Voltemos às reformas.

No sábado, o buliçoso Deltan Dallagnol, rejeitado por 45% dos brasileiros e aprovado por apenas 13%, concedeu uma palestra a uma turma do mercado financeiro. Atacou a reforma política, o distritão e o fundo público de campanha. Chamou tudo de expressão da “velha política”. Ah, sim: indagado se pretende se candidatar, foi ambíguo. Deu a entender que talvez não já, mas quem sabe um dia, no futuro… Disse que pretende colaborar com o Brasil seja no setor público, seja no privado.

Entendo. Marcelo Miller, seu ex-companheiro de MPF, resolveu ajudar o Brasil, por exemplo, pedindo demissão do órgão público e advogando, três dias depois, para a JBS. O Brasil está lotado de patriotas. Considerando o que a Lava Jato fez com a política, só uma resposta de Dallagnol seria decente: “JAMAIS SEREI POLÍTICO”. Pois é… Rodrigo Janot se prepara para se filiar à Rede Sustentabilidade. Se bem que a turma de Marina Silva talvez deva ser mais prudente. Ele é reprovado por 52% da população, segundo a pesquisa, e aprovado por apenas 22%.

Mas volto ao procurador-estrela. O rapazola é contra o financiamento de campanha por empresas. O MPF transformou toda doação em propina, o que começa a ser finalmente desmentido. Mas ele também se opõe à criação do fundo público. Saída? Ora, ele tem em mente uma reforma, ele não esclarece qual é, que baratearia as campanhas de tal sorte que o Brasil seria a única democracia do mundo que não contaria, nas eleições, nem com doação de empresas nem com fundo público. Se é uma coisa que só daria certo no Brasil, bem, então deve ser besteira.

Mas ele não está sozinho. O Movimento Vem Para Rua levou algumas centenas de pessoas a São Paulo — em outras cidades, não mais do que dezenas — para protestar contra tudo o que está aí. Os chefes do movimento demonstraram orgulho porque gritavam contra Lula, contra Aécio, contra Gilmar Mendes, contra o distritão (que eu também combato como modelo permanente, mas ninguém tem essa proposta) e contra o financiamento público da campanha de 2018.

Também Rogério Chequer, a face mais visível de um movimento que ficou quase invisível neste domingo, não sabe se vai se candidatar ou não… Também ele, pelo visto, acha que se pode caminhar para uma eleição sem que se saiba quem financia o quê, o que seria um paraíso para o crime organizado e para grupos especializados em trabalhar com dinheiro vivo e operar caixa dois.

A população não se interessou e não foi ao protesto organizado por Chequer e seus amigos. Ele tem uma tese: a mobilização, hoje em dia, seria mais virtual, se daria nas redes… Será que o mundo mudou tanto de 2015 a esta data? Não custa lembrar: só com militância virtual em favor do impeachment, Dilma ainda seria presidente da República.

Que os senhores políticos tenham a coragem de fazer o que tem de ser feito e parem de ter medo de fantasmas.

Recomendado para você


Comentários