Ciro 2: Num eventual governo seu, o “PMDB” atenderia pelo nome de PT; pauta liberalizante iria para o diabo, e o atraso restaria garantido

Publicada: 22/05/2018 - 7:34


Quem me acompanha sabe que os meus piores temores estão se concretizando. O necessário trabalho de combate à corrupção da Lava Jato degenerou em caça às bruxas. É curioso que os mesmos que saem por aí se ajoelhando de forma acrítica para a Lava Jato se digam defensores da tal agenda liberal, que foi ficando sem sustentação popular. É notável: a esquerda tem uma pauta que, acho eu, posta em prática, destruiria o país; os liberais, por sua vez, não conseguem defender as medidas que tiraram esse mesmo país do buraco porque, afinal, não querem se identificar com o governo.

FHC não inventou nem a coisa definida como “presidencialismo de coalizão” nem a expressão, como sugere Ciro Gomes (PDT) na sabatina Folha-UOL-SBT. O conceito traduz, dada Constituição brasileira, que é presidencialista com sotaque parlamentarista, o óbvio: não se governa sem o apoio do Congresso. Ciro acha que FHC inventou o “loteamento de cargos”, o que é uma besteira gigantesca. Se eleito presidente, como ele espera conseguir 308 votos na Câmara e 49 no Senado para aprovar emendas? Afirma que, nos primeiros seis meses, um presidente pode tudo. Ele realmente acha que lhe dariam licença para ser César.

Tem muito de conversa mole e maluquice em sua fala? Tem, sim! Mas há uma escolha: ele sabe que seu espaço para crescer à direita é reduzidíssimo. E não só porque há uma inflação de candidatos. Mas porque, na prática, faltam eleitores. E parte dos que existem está aplaudindo Jair Bolsonaro quando defende que a população se arme. Nesse período pré-campanha, o hospício da esquerda oferece loucuras mais definidas que o hospício da direita, aquela que renunciou de forma deliberada à razão.

Quer dizer que Ciro, então, não governa se for eleito?

Bem, a maluquice vai até certo ponto. Num dado momento da sabatina, ele afirma que um entendimento com o PSDB é possível, mas não agora. Seria coisa para o futuro. Se eleito, é claro que terá de apelar também a pedaços do PMDB. Ou por outra: o tal “presidencialismo de coalizão”, que sustentou os governos que não caíram desde a redemocratização também seria a sua âncora, mas, como se percebe, o programa liberalizante vai para a cucuia. E, por óbvio, o seu PMDB de verdade, o núcleo de sua base de sustentação, atenderia pelo nome de PT, já que o partido tende a manter uma das maiores bancadas na Câmara e dispõe de quadros. Podemos não gostar deles, mas existem.

Em síntese, pouca gente se deu conta de que, na sabatina, Ciro esboçou o programa de governo do PT. E sem ter de pagar o preço de ficar fazendo a defesa de Lula e de denunciar uma conspiração liderada pela Lava Jato. O candidato do PDT é mais genérico, sem entrar em confronto com a operação: a conspiração se daria contra os interesses populares, obra da direita etc e tal.

O atraso, meus queridos, estaria garantido. Com método.

 

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