Guerra não declarada no Brasil mata quase o quádruplo do que mata a guerra civil na Síria

O crescimento de uma candidatura como a de Jair Bolsonaro, por exemplo, também se explica por isso. A permanente sensação de insegurança, a literatura é farta a respeito, é um dos combustíveis da pregação fascistoide. A outra, como sabemos, é a depredação da política e o ataque generalizado aos políticos, como fazem os Deltans Dallagnois, Carlos Fernandos e demagogos associados

Publicada: 30/10/2017 - 17:04


A cidade de Alepo, na Síria: devastação provocada pela guerra civil. A nossa afeta pouco o patrimônio; mata mesmo é pessoas em penca

Até março de 2017, desde o início da guerra civil na Síria, que completava, então, seis anos, eram 321.358 os mortos. Uma barbaridade? Sim! Uma barbaridade. Mas o Brasil matou mais nesse período: só em 2016, foram vítimas de mortes violentas 61.619 pessoas, um crescimento de 3,8% em relação ao ano anterior. Isso eleva a taxa nacional de mortos por 100 mil para 29,9 assassinatos por 100 mil habitantes, uma das mais altas do mundo.  Querem uma medida? Isso corresponde a 42,8 vezes o que se mata na Alemanha; 7,4 vezes, nos Estados Unidos ou 99,6 vezes, no Japão. Nota à margem: no Japão, armas portáteis são proibidas, incluindo as brancas. Permite-se a posse de armas de ar comprimido e de caça. Ainda assim, sob rigoroso controle. Quem dispuser de licença para portar um artefato desse segundo tipo só consegue comprar munição nova se apresentar o cartucho da usada. Nos EUA, a posse é livre. Os dois países são ricos e têm IDHs compatíveis. Os mortos nos EUA correspondem a 15 vezes os do Japão. Negar a influência da livre circulação de armas na taxa de homicídios é coisa de estúpidos, mensaleiros da indústria de armas ou de sociopatas. Adiante. Há uma quarta explicação possível? Não. Os dados sobre a situação do Brasil foram divulgados hoje pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

De volta ao Brasil e à Síria. 

A comparação do Brasil com a Síria em guerra sangrenta, vítima de uma miríade de grupos terroristas e de um governo compulsivamente homicida, ainda não diz tudo de nossa tragédia. Aqueles 321.358 mortos incluem todas as vítimas, incluindo soldados do Exército oficial e insurgentes. Estes estão em guerra. Os números que interessam na comparação são outros: nesse grupo, são 91 mil os realmente civis, como civis são os que morrem no Brasil. Assim, meus caros, em seis anos, os homicídios dolosos no país estão em torno de 320 mil pessoas. É correto dizer que a guerra civil não-declarada em nosso país mata quase o quádruplo do que mata o conflito armado na Síria. Sim, ainda há muito a comentar a respeito, e eu o farei. O detalhamento do levantamento indica alguns desatinos que o país está cometendo sem se dar conta.

O crescimento de uma candidatura como a de Jair Bolsonaro, por exemplo, também se explica por isso. A permanente sensação de insegurança —a literatura é farta a respeito— é um dos combustíveis da pregação fascistoide. A outra, como sabemos, é a depredação da política e o ataque generalizado aos políticos, como fazem os Deltans Dallagnois, Carlos Fernandos e demagogos associados. Por que trago a questão à tona? Há quase um mês, dia 05 de outubro, em Belém, não tendo nenhuma outra ideia com que seduzir o distinto público, a não ser a ignorância truculenta, o pré-candidato prometeu distribuir porte de armas a todos os brasileiros.

Ora vejam… Sim, parte considerável dessas mortes é obra de bandidos ilegalmente armados. Caso se vá analisar os números no detalhe, parte considerável dos mortos também é. Gênios da espécie como Bolsonaro acham que, se “as pessoas de bem” estiverem armadas, então poderão se defender. E, no caso, morre o bandido e sobrevive a pessoa honesta. A afirmação vai contra todas as evidências. A reação a uma abordagem violenta é, na esmagadora maioria das vezes, a pior escolha, mesmo para profissionais da área de segurança, como se viu recentemente no Rio. Policiais experientes foram assassinados ao tentar reagir a assaltos. Menos chance de ser bem-sucedido tem o homem comum.

“Então seremos todos vítimas passivas da violência?”, indaga o demagogo, como se tivesse encontrado o caminho retórico para escapar do óbvio. Não! É preciso não responder à questão complexa com a solução simples e errada, que só vai aumentar o número de vítimas. Ademais, a livre circulação de armas, legais ou ilegais, é apenas um dos fatores a ser levado em conta. Ou o tontolino de plantão logo dirá: “Nos EUA, onde não há restrições venda de armas, mata-se um quinto do que se mata no Brasil”. Comparar países de padrões sociais tão distintos — o que indica ignorar as outras variáveis — é de uma supina estupidez.

Voltamos ao começo.

Comparecem os EUA com o Japão, países de padrões semelhantes de desenvolvimento, onde as armas são proibidas. Morrem, por 100 mil habitantes, vítimas de violência, 14 vezes mais americanos do que japoneses. A influência da circulação de armas nos índices de violência não é mais matéria sujeita a controvérsias. Agora, o que se tem é questão ideológica, de fundo similar à religião. As pessoas têm todo o direito de achar que o Sol gira em torno da Terra e que, de fato, tudo começou com aquele trio: um Adão, uma Eva e uma serpente… Só não podem aspirar a que isso seja considerado um conhecimento científico.

E haveremos de combater, se combatermos, a explosão de violência no país com dados fornecidos pela análise racional dos números, não pela estupidez da demagogia e da ideologia, ainda que estas sejam apenas o verniz de algo bem mais prosaico: o velho e rentável lobby da indústria armamentista.

Recomendado para você


Comentários