Há perplexidade no PT, sim; afinal, Lula venceria; manter a candidatura impossível é, no entanto, estratégia, não desespero

Publicada: 16/04/2018 - 8:17


Lula cercado de militantes no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC um dia antes da prisão

Eu sei que Lula não será candidato à Presidência da República.

Vocês sabem que Lula não será candidato à Presidência da República.

Os petistas sabem que Lula não será candidato à Presidência da República.

Então por que eles insistem em afirmar o contrário?

Ora, os números da pesquisa Datafolha o explicam de sobejo. Como se viu, nos cenários em que seu nome é testado, ele tem mais do que o dobro do segundo colocado — 31% contra 15% de Jair Bolsonaro (PSL) — e bateria seus principais adversários na etapa final com os pés nas costas: venceria Geraldo Alckmin (PSDB) por 48% a 27%; Jair Bolsonaro (PSL), por 48% a 31%, e Marina Silva (Rede), por 46% a 32%. Sem o nome de sua principal liderança, o PT desaparece no primeiro turno, e o que explode é o número de brancos e nulos, que poderiam alcançar 32%.

Que se note: a prisão de Lula é um elemento que tem correlação com a sua inelegibilidade, mas não uma relação de causa e efeito. Condenado por um colegiado, ele está inelegível, e é isso o que diria o TSE no tempo adequado.

Há um tanto de fúria e perplexidade no PT, sim, mas é bom considerar que estamos lidando com uma estratégia política. A fúria e a perplexidade se explicam com facilidade: o partido sabe que, não fosse a condenação, de que a prisão é consequência — com todos os seus expedientes de exceção, destaco —, Lula seria eleito em outubro presidente da República.

Assim, o partido vê o poder lhe escapar das mãos sem que que haja o que fazer. Se a estratégia de recuperação política da legenda tem sido bem-sucedida — e é bem verdade que seus inimigos o ajudam nisso —, no terreno jurídico, as derrotas se acumulam. Com o emprego da lei ou de instrumento de exceção, o fato é que o PLJ (Partido da Lava Jato) ganhou todas do PT.

Assim, há um quê de verdadeiro no que parece um autismo político, que repete obsessivamente o mantra: “O candidato é Lula”. Mas, insisto, trata-se de uma estratégia. Não há o que o partido possa fazer por enquanto. Escolher agora o nome que vai substituir o ex-presidente como candidato ou aderir a algum outro no terreno da esquerda sinalizaria uma espécie de conformismo com a prisão. E, vamos lá, na dialética das evidências, o Lula preso e impossibilitado de concorrer, é, sim, o evento trágico para o partido, mas é também o seu grande ativo nesse período que busca simular uma resistência.

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