Haddad e Ciro no escritório de Delfim para debater união da centro-esquerda. Se servir para acordar o “centro”, já terá sido um golaço!

Publicada: 24/04/2018 - 8:53


Ciro Gomes e Fernando Haddad: aliança entre PDT e PT no primeiro turno ainda não está descartada

Convém prestar atenção a um movimento relatado em texto publicado pela Folha na edição de hoje. Há ali algumas considerações desairosas a FHC — nem poderia ser diferente, dados alguns convivas — e achismos, como o de que a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) não emplaca. Como cantaria Cartola, “ainda é cedo, amor, mal começaste…” Essas considerações podem dar sabor e colorido ao encontro, mas não têm importância.

O que há de relevante são as personagens e a conversa: encontraram-se de manhã, no escritório de Delfim Netto no Pacaembu, em São Paulo, Fernando Haddad, apontado como um dos candidatos a preencher, na disputa presidencial, a vaga aberta no PT com a prisão de Lula; Ciro Gomes, presidenciável do PDT, e Luiz Carlos Bresser-Pereira, um ex-tucano que deixou o PSDB pela porta da esquerda. O tema? A formação de uma frente de centro-esquerda na disputa de 2018.

Não se esqueçam de um destaque que dei ontem aqui à carta que Lula enviou ao Diretório Nacional do PT, lida pela presidente da legenda, Gleisi Hoffmann: o que importa na eleição, deixou claro, é o destino do partido e da esquerda. Lula pode até estar obcecado com a ideia de deixar a cadeia e se candidatar. Mas não teria chegado tão longe se fosse um fanático do irrealismo. Sabe que isso não vai acontecer.

Segundo informa o texto, tanto Haddad como Ciro consideram que há chances reais de PDT e PT marcharem unidos na disputa já no primeiro turno. É claro que tudo ainda é precário e delicado. Mas, como sabem, dezenas de vezes escrevi aqui que não se deve descartar essa aliança. Mais: disse também que a prisão de Lula precipitaria essa conversa. Embora a condenação em segunda instância o impeça de ser candidato esteja dentro ou fora da cadeia — e é o que dirá o TSE quando a questão lá chegar, e ela vai chegar —, a prisão fez com que um bom número de petistas “realizasse” (como diriam os psicanalistas) o óbvio.

Ou por outra: mesmo que algum recurso possa tirar Lula da prisão antes do trânsito em julgado, ele não será o candidato do PT.

Bresser-Pereira é um homem de esquerda, ainda que moderado. Mas o que faz Delfim Netto na condição de anfitrião? A gente poderia sair pelo caminho da pura maledicência. Ele nunca foi um conviva dos tucanos, por exemplo. Vivia trocando farpas com Gustavo Franco ao tempo em que este era presidente do Banco Central. Ficou afastado dos centros decisórios, a rigor, desde a redemocratização. Tancredo Neves considerava que ele seria o chefe da oposição a seu governo.

Delfim, um homem brilhante — e acho que isso não se contesta —, voltou a ser muito influente em decisões de Estado no governo petista — na verdade, no governo Lula. Se Dilma tivesse ouvido seus conselhos, não custa lembrar, não teria feito algumas das besteiras que fez. Pode estar um pouco injuriado com a “República dos Procuradores”, que, tudo indica, meteu os pés pelas mãos no seu caso ao considerar uma possível propina o que foi, e parece inequívoco, pagamento de consultoria.

De toda sorte, embora com sotaque à direita, Delfim sempre esteve ligado ao debate do desenvolvimento. A sua presença na conversa serve para diluir a suspeita de que se prepara um bicho-papão de esquerda para assombrar o país. Mesmo nos anos em que os poderosos de turno não queriam ouvi-lo, manteve a influência sobre parte considerável do PIB nacional. Obviamente, Delfim é um aceno à direita e à centro-direita, por mais que se queiram aposentar essas categorias, numa reunião em que se debate uma eventual composição da centro-esquerda.

Bresser-Pereira acha que uma aliança Ciro-Haddad romperia o que chamou de “camisa de força” que estariam, sabe-se lá quem, tentando impor ao eleitorado. Para Delfim, “Lula preso pode causar tanto barulho eleitoral quanto solto”.

Debateu-se também a hipótese da hora, Joaquim Barbosa, e parece ter sido um consenso de que ele pode ser um nome forte, mas que a tendência é não concorrer. Também isso fica na conta do chute. Nem o próprio Barbosa sabe o que fará.

O que de relevante se deu, note-se, foi a conversa entre Haddad e Ciro, mediada pelos outros dois. E, por óbvio, ela não teria acontecido sem a anuência de Lula, ainda que setores do PT tenham rangido os dentes. E Guilherme Boulos, do PSOL, estaria nessa frente? E Manuela D’Ávila, do PCdoB? Ele não, ela talvez sim. De toda sorte, sempre chega a hora em que os políticos fazem a pergunta atribuída a Stálin quando lhe teriam dito que o papa estava descontente com uma decisão sua: “Mas quantas divisões [de canhões] tem o papa?”

Fez-se apenas uma primeira conversa. Haverá tantos petistas tentando detonar o entendimento que nem mesmo dá para assegurar que haverá a segunda. Mas algo se mexeu no terreno da esquerda. Jair Bolsonaro (PSL) segue na sua, estagnado, sim, mas atirando em tudo o que se mexe. Só o chamado “centro” segue balcanizado, dividido, esfrangalhado e inerte.

Sabem a melhor coisa da conversa sobre a união das esquerdas? A possibilidade de o centro e de a centro-direita acordarem para a vida.

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