Manifesto apela à pluralidade; o Brasil, de fato, não precisa de um confronto no escuro entre fascistoides de direita e de esquerda

Publicada: 18/05/2018 - 8:22


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, presidente de honra do PSDB, o senador Cristovam Buarque (PPS-DF), o deputado Marcos Pestana (PSDB-MG) e o senador Aloysio Nunes Ferreira redigiram um excelente manifesto intitulado “Por um polo democrático e reformista”. O texto constata a crise política vivida pelo país e aponta as suas causas: “Instabilidade política aguda, recessão econômica profunda, estrangulamento fiscal, corrupção endêmica e institucionalizada, radicalização em um ambiente social marcado pela desesperança, a intolerância e o sectarismo e conflitos e desarmonia entre os poderes republicanos”. Bem, parece-me que, com efeito, todos esses males estão aí, aos olhos de todos.

O texto apela, de cara, à pluralidade, defendendo o diálogo entre forças díspares para evitar uma “confrontação entre populismos radicais, autoritários e anacrônicos”; entre, para ficar ainda nos termos do texto, uma “direita com claras inspirações antirrepublicanas e antidemocráticas” e uma “esquerda anacrônica”, que “alimenta utopias regressivas de um socialismo autoritário e antidemocrático e de um Estado intervencionista e onipresente”.

Bem, eles não dão os nomes, mas a nossa obrigação é fazê-lo: o texto alerta, em suma, para o risco de uma confrontação entre uma esquerda hegemonizadas pelo PT e uma direita que fala a língua de Jair Bolsonaro. Não é a economia americana que leva o dólar para R$ 3,70; é essa miséria política. É a incerteza que está empurrando para baixo uma economia que ensaiava um crescimento respeitável neste ano. É a certeza de que um presidente, qualquer que seja ele, não governa sem apoio político sólido no Congresso que induz o pessimismo dos agentes econômicos.

Parece-me reducionista chamar o texto de mero convite para uma união do “centro”, essa categoria um tanto pastosa. O documento nomina as forças com as quais quer dialogar: “liberais, democratas, social-democratas,  democratas-cristãos e socialistas democráticos”. Bem, eu também entendo que essas vertentes não estão contempladas nos dois nomes que aparecem hoje à frente na disputa: Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro — este com metade das intenções de votos daquele.

Essa possibilidade, dadas as características antitéticas dos dois grupos, alimenta a radicalização num ambiente já crispado. Tanto pior quando aquele que lidera as pesquisas está na cadeia, o que só serve para aumentar a margem de incompreensão da esquerda sobre o processo democrático. Infelizmente, o que se colhe em todo canto é desesperança, desalento, perplexidade.

O texto deixa claro que não pretende se esgotar na conversa de um grupo fechado de pensadores ou, sei lá, de “salvadores do centro”. Trata-se de um convite à ampliação do diálogo. Lá se lê:
“Este projeto nacional, visando à construção da necessária e urgente unidade política nas eleições, não deve ser obra de uma dúzia de líderes políticos e intelectuais. Para pavimentar o caminho da unidade, terá obrigatoriamente de ser obra coletiva, envolvendo partidos políticos, lideranças da sociedade civil e todos aqueles que pensam o Brasil fora do paradigma autoritário, populista, atrasado e bolivariano.”

Bem, é evidente que concordo com o diagnóstico e enxergo precisamente os riscos nele apontados. Até porque chamo a atenção para eles, como sabem os leitores, desde o fim de dezembro de 2016. O manifesto vai ao ponto quando afirma:
“Tudo que o Brasil não precisa, para a construção de seu futuro, é de mais intolerância, radicalismo e instabilidade. Para nos libertarmos dos fantasmas do passado, superarmos definitivamente a presente crise e descortinarmos novos horizontes é central a construção de um novo ambiente político que privilegie o diálogo, a serenidade, a experiência, a competência, o respeito à diversidade e o compromisso com o país.”

“Ah, é só uma tentativa de reforçar a candidatura de Geraldo Alckmin. Afinal, ali estão três tucanos”. Não há que se esconder nada do leitor. O perfil mais parecido com o que defende o documento é, sim, o de Alckmin. O mais importante, no entanto, é saber se o diagnóstico está certo ou errado.. Leiam e façam a própria avaliação.

O manifesto faz o elenco do que chama “17 ideias iniciais” para alimentar o debate:
1: a defesa intransigente da liberdade e da democracia como caminho para a construção do futuro do país;
2:  a luta contra todas as formas de corrupção;
3: prioridade absoluta para a transformação inadiável de nosso sistema educacional;
4: a busca incansável do equilíbrio fiscal, sem o que não se sustentarão os atuais baixos patamares de inflação e da taxa de juros;
5: a reconstrução de nossa Federação, com uma radical descentralização, fortalecendo o poder local e regional num país de dimensões continentais;
6: a mudança estrutural de nosso sistema tributário tornando-o mais simples, justo, desburocratizado e eficiente;
7: reformar nosso sistema previdenciário injusto e insustentável. Precisamos de um sistema único que elimine privilégios e assegure o equilíbrio atuarial;
8: incentivo radical à promoção da ciência e tecnologia;
9: combate a todas as formas de autoritarismo e populismo. A demagogia e atitudes hostis à vida democrática devem definitivamente ser afastadas do cenário nacional;
10: defesa de um alinhamento internacional que resgate, as melhores tradições do Itamaraty, com uma política externa que privilegie os verdadeiros interesses nacionais;
11: Uma postura firme no setor de segurança pública baseada no princípio de tolerância zero com o crime organizado;
12: aprofundar o esforço de qualificação do Sistema Único de Saúde;
13: adotar soluções criativas e eficazes na moradia e no saneamento, aprendendo com a experiência acumulada pelo “Minha Casa, minha vida”;
14: empreender esforços para a concretização de uma profunda reforma política que aproxime a representação política das bases da sociedade;
15: defesa de uma perspectiva de desenvolvimento sustentável;
16: fortalecimento da administração pública, com a modernização de suas estruturas;
17: o combate sem tréguas à miséria, à pobreza e às desigualdades sociais e regionais, graças à elevação da produtividade e à melhoria da distribuição de renda.

Sim, você tem todo o direito de achar que isso é o que mais ou menos dizem todos os candidatos. Em primeiro lugar, não é verdade. Posso apostar que um Lula ou um Bolsonaro submeteriam o que vai acima a um profundo corte, acrescentando outras prioridades. Em segundo lugar, indago: o país sairia ganhando ou perdendo com essa agenda?

Mas deixo claro: para mim, mais importante do que o elenco de diretrizes ou ideias gerais é a questão democrática, que dá espírito ao manifesto. O país não precisa de uma luta de fascitoides no escuro.

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