Minha pergunta a Bolsonaro e fúria da turba 1: Fiz uma indagação sobre dívida interna, não sobre morte de Odete Roitman e Salomão Ayala

Publicada: 19/08/2018 - 6:09


Quem matou Odete Roitman e Salomão Hayala? Não! Eu não fiz nenhuma pergunta exótica!

As hostes bolsonaristas nas redes sociais estão furiosas comigo. Só não me chamam de santo. Não que seja estranho. Seus estrategistas, conselheiros e puxa-sacos — entre os quais há jornalistas — estão convencidos de que o caminho rumo à vitória é mesmo a solidão coletiva dos sectários — vale dizer: ele quer se fazer presidente contra os outros candidatos, o que é do jogo; contra os partidos políticos; contra o Congresso e, acima de tudo e de todos, contra “a imprensa”, como se esta fosse um monólito sem divergências.

Pertenço à imprensa. Logo, pouco importa o que eu pense, eu também não prestaria por princípio. Seria tucano, peemedebista ou petista — às vezes, uma soma dos três. Logo vão descobrir meu viés psolista. A menos que eu me ajoelhe aos pés daquele a quem chamam “mito”, sou inimigo. Bolsonaro é o verdadeiro “Deus vivo” do Cabo Daciolo. Nota à parte: nesse particular, isso a que se chama “bolsonarismo” não difere em nada do petismo, a despeito das diferenças de origem, valores, ideologia, história etc. Como é sabido, antes mesmo de chegar ao poder, em 2003, Lula deixou claro que todos seriam bem-recebidos em suas hostes desde que fizessem a genuflexão.

Há outras correspondências: a truculência dos bolsonaristas nas redes chega a ser superior à havida no auge da virulência dos petralhas, quando o poder petista parecia mais eterno do que os diamantes. As táticas fascistoides nas redes sociais se igualam. A ligeira diferença está na bibliografia. Os esquerdistas, ainda que mal lidos, leram alguma coisa. A turma de Bolsonaro parece achar que livro é coisa para veadinhos…

Mas por que a fúria comigo? Porque eu fiz ao candidato que ainda lidera as pesquisas — quando Lula não aparece entre os postulantes — uma pergunta simples e clara sobre a relação entre encargos com a dívida pública e o Orçamento. Uma pergunta, convenham, elementar, básica, trivial até. Consegui não estourar o tempo exíguo, o que, no meu caso, é um milagre… Usei 26 segundos dos 30 a que tinha direito — no vídeo, a partir de 57min17s. Busquei a clareza máxima. Notem que até evito a terceira pessoa do presente do subjuntivo do verbo “concernir” porque a palavra “concerna” me pareceu na hora pedante, incompreensível ao interlocutor. Troquei por “diga respeito”. Reproduzo a minha pergunta por escrito:
“Candidato Jair Bolsonaro, o Orçamento de 2017 foi da ordem de R$ 2,56 trilhões. Perto de 50%, talvez um pouco mais disso, são encargos da dívida: rolagem e uma parte de juros, que o Brasil não paga; o Brasil capitaliza juros, não está pagando. Que resposta o senhor tem para isso, ou isso, na sua opinião, não é um problema que concer… [ QUASE MANDO UM CORRETO “CONCERNA”, MAS RESOLVI SER MAIS CLARO] que diga respeito ao presidente da República?”

E pedi que o comentário fosse feito por Ciro Gomes porque o pedetista é quem mais tem tratado do explosivo endividamento interno.

Respondam-me:
1: há aí alguma tentativa de ser “engraçadinho”?;
2: fiz alguma pegadinha?;
3: pedi a Bolsonaro que detalhasse a composição da taxa Selic?;
4: indaguei se ele se lembrava do, sei lá, Teorema de Pitágoras, para ser manso?;
5: quis saber de que país a cidade de Funafuti é a capital?;
6: perguntei qual era a terceira pessoa do presente do subjuntivo de “concernir”? indaguei-o sobre verbos defectivos?;
7: pedi que desse detalhes sobre a formação da TJLP?;
8: coloquei-lhe numa roubada inquirindo-se se ele sabe em que órgão se produz a maior quantidade de serotonina?;
9: apelei à sua memória com a complexa questão dos pontos cardeais?;
10: fui na sua jugular, indagando se ele se lembrava dos nomes dos assassinos de Odete Roitman e Salomão Ayala?

Não! Fiz uma pergunta elementar a quem quer ser presidente da República.

Com a possível exceção de Cabo Daciolo — “possível”, dado o conjunto da obra, mas não posso asseverar porque a pergunta não lhe foi dirigida —, todos os presentes ao debate da RedeTV! sabiam o que são termos como:
– orçamento;
– divida pública;
– rolagem da dívida e
– juros.

Sabiam e tinham noção ao menos de como essas coisas se conjugam. E, por óbvio, dariam respostas diferentes. Pegue-se, entre os presentes, um candidato com muito menos votos do que Bolsonaro, segundo as pesquisas: Guilherme Boulos. Talvez ele desse uma resposta que, se posta em prática, conduzisse o país ao abismo. Mas certamente não reagiria com a expressão de quem ouvisse a pergunta: “Funafuti, candidato, é a capital de que país?”

“Então por que você não dirigiu essa pergunta a Boulos, Reinaldo Azevedo?”

Porque eu não acho que exista a possibilidade de ele se tornar presidente da República, ora! Não nessa eleição. Já o sr. Jair Bolsonaro lidera as pesquisas quando Lula não aparece na lista de candidatos. Logo, uma questão crucial para o país — a mais importante no que respeita à macroeconomia — tem de ser respondida por quem aparece como um “grande na disputa”.

“Mas e a Wal do açaí? E a questão de gênero? E o Foro de São Paulo?” Bem, eu e o público já sabemos o que Bolsonaro pensa sobre essas coisas. Aliás, ele as evoca a toda hora. Se eu lhe perguntasse: “O senhor se lembra da fórmula do Teorema de Pitágoras?”, ouviria, junto ou não com o “a² + b² = c²”, que ele quer uma escola sem partido, sem ideologia de gênero, que não ensine um garoto a brincar de boneca…
Continua aqui

 

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