“Osmercáduz” pisca a Bolsonaro? Será infiltração petista? Não há notícia melhor para o PT

O que interessa é saber em quais valores deputado ancora a sua postulação, que pauta a sua ascensão encarna e quais forças sociais mobiliza para se manter na disputa

Publicada: 13/11/2017 - 7:23


Bolsonaro: é claro que ele não seria corajoso o bastante para enfrentar os mercados, mas seu discurso é covarde o bastante para defender que a população se arme. E isso tem um preço, sr. Osmercáduz

Xiii, aquele ser estranho, que não tem corpo, endereço ou convicções definidas, está de volta. E agora dá piscadelas a Jair Bolsonaro.

Quem é esse? Atende pelo nome de “Ozmercádus”.

Ai, ai, eu sempre temo a hora em que essa personagem, que assombra todas as eleições, decide dizer porcarias. Escrevi sobre “Osmercáduz” na coluna na Folha, no dia 27 de outubro, em que recomendava a Luciano Huck que ficasse longe da eleição para não transformá-la num plebiscito de “sim” ou “não” à Globo — e o “não” venceria com folga.

Uma pequena digressão: o grupo que não consegue mais nem depor presidente da República não vai conseguir elegê-lo, certo? Vejam o caso da gestão Michel Temer: desde que a Globo existe, é o primeiro governo que a emissora nem apoia nem ajuda a derrubar ao mudar de lado, como fez com Collor ou Dilma. O grupo exigiu a renúncia de Temer, comportou-se editorialmente como ordem unida, pôs as forças armadas de microfone das ruas, avançou com a coluna de tanques de tanques no Congresso, mobilizou a Cavalaria para enviar mensagens aos Senhores da Guerra da República. E nada! Travou-se até batalha naval, com submarinos na Comissão Especial da Câmara que avaliou as denúncias. Dava o tiro e… “água!” À noite, o deputado Alessandro Molon (Rede-AP) e o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) choramingavam no “Jornal Nacional”.  Mas volto ao leito.

“Ozmercádus”, li na Folha deste domingo, “flerta com a agenda reformista de Bolsonaro”. Não soubesse eu ser isso, com efeito, verdade, seria capaz de jurar que a repórter é uma agente petista infiltrada no jornal. Qualquer pessoa com a quantidade necessária de neurónios para distinguir, como diria Dilma, uma criança de um cachorro, que é a “figura oculta que corre atrás”, percebe que não poderia haver notícia melhor para o petismo.

Notem que falo “o petismo”, não a candidatura de Lula. A chance de que este não seja candidato por impedimento judicial é gigantesca. Assim, cumpre criar um cenário de “contra Lula, vale tudo”: proibi-lo de ser candidato; lançar um apresentador de TV; flertar com um militar reformado destrambelhado (com um discurso que transforma a direita numa caricatura); algum ET, se aparecer. O que poderia acontecer de melhor para os “companheiros” do que reeditar a luta do “Nós” contra “Eles”, agora estimulada pelo adversário: “Eles” contra “Nós”?

Quem diria, né? Quando comecei a advertir para esse risco, há precisamente um ano, disseram que eu exagerava, que estava louco, mas aí está. E nem vou me dedicar agora a esse particular. Ainda não é a hora de dizer, mas chegará, “a história me deu razão”. Falta muita água para arrastar a ponte.

Segundo a reportagem, “Ozmercádus”, este onipresente sujeito oculto, estaria vendo com bons olhos a “pauta liberal” de Bolsonaro. Com a devida vênia, duvido que o pré-cadidato saiba a diferença entre “economia de mercado” e “economia de supermercado”. Ele jamais teve apreço por esse debate e, nas vezes em que se manifestou sobre o tema, até passado recente, suas convicções econômicas não o distanciavam muito das do PSOL ou do PCO. Mas vá lá: vamos dar de barato que tenha se tornado um admirador tático da “economia de mercado”…

É bom parar com certa conversa mole que carrega um quê de terrorismo eleitoral  e que apela ao medo — sentimento que sempre procura morar perto da burrice e da ignorância. O Brasil já tem mercado de capitais — aliás, seu porta-voz mais idiota costuma ser “Osmercáduz”. Se algum candidato vitorioso, ou em vias de, resolver ultrapassar a linha do aceitável, tem as pernas quebradas. O Brasil não é a Venezuela. Lula, Bolsonaro, Ciro ou outro qualquer, no que diz respeito ao curto prazo, fariam o discurso da ordem. Eleitos, nos dois meses que antecedem a posse, qualquer um deles se ajoelharia no milho para não assumir a Presidência com o dólar nos cornos da Lua e a inflação certa que disso adviria.

Esse não é e nunca foi o ponto.

A questão é saber, e isso vale também para Lula e para o PT — e volto ao tema em outro post — em quais valores o buliçoso capitão reformado, que foi punido pelo regime que tanto defende (e, no seu caso, por bons motivos), ancora a sua postulação. Que ele não botaria fogo no circo da economia, ah, isso é óbvio. Nem deixariam. Antes que piscasse, seria destituído por um processo de impeachment. O risco, meus caros, não é Bolsonaro ser o candidato da desordem nesse particular, mas justamente o da ordem.

O que interessa é saber em quais valores ancora a sua postulação, que pauta a sua ascensão encarna e quais forças sociais mobiliza para se manter na disputa. Não será, por certo, o único candidato a acenar com uma pauta liberalizante. Também o farão, por exemplo, Geraldo Alckmin (sim, no PSDB, será ele) e um nome do PMDB (por que não Henrique Meirelles?). Do outro lado da linha, estará Lula ou quem ele apoiar (e é tolice descartar que seja Ciro Gomes). No debate econômico, Bolsonaro pode ser humilhado por qualquer um (e isso inclui Lula). Vai lhe restar amplificar as besteiras que já prodigaliza hoje no terreno dos costumes e do anticomunismo rombudo e chinfrim.

Vamos agora para o tempo das conjecturas. Nesse cenário, não teria saída senão exacerbar um tanto mais o discurso de extrema direita, para se diferenciar do conservadorismo civilizado e mais informado. Essa crispação fortaleceria o candidato viável da esquerda, que forçaria o discurso, ora vejam, da integração, da paz social, da tolerância.

“Osmercáduz” é a voz mais idiota do mercado. Flertar com a candidatura de Bolsonaro, de Luciano Huck ou de qualquer outro exotismo para evitar Lula e o PT é o caminho mais curto para eleger o chefão ou quem ele indicar.

Caramba! Será que “Osmercáduz” está a cuidar do meu parco dinheirinho? Se estiver, preciso fazer alguma coisa. Com tanta burrice, eu ainda acabaria sem nada!

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