Patrimônio multimilionário dos Bolsonaros dá início ao esfarelamento do falso mito; sicários do comedor de gente açulam ódio

Publicada: 13/01/2018 - 5:28


Escrevi ontem dois textos sobre o “Milagre Bolsonarista da Multiplicação do Patrimônio” (aqui e aqui). Os fiéis de sua seita não gostaram. O argumento mais inteligente que usaram contra mim já foi empregado, ora vejam!, pelo deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ): só escrevi esses textos porque eu seria “uma bichona enrustida”. Ainda que fosse verdade: isso mudaria alguma coisa no patrimônio de R$ 16,7 milhões da Família Bolsonaro? O fato: com um levantamento de bens em cartórios, a Folha esfarelou os pés de barro do “mito”. É uma estratégia eleitoral que está virando pó. Já chego lá.

Sim, os fiéis da Igreja Bolsonarista ficaram furiosos. Em especial, agastaram-se com uma conta irrespondível que fiz: se o quarteto — Jair, Eduardo, Carlos e Flávio — tivesse guardado 100% de seus ganhos com política ao longo dos anos, a soma, ainda assim, seria inferior ao patrimônio dos quatro: R$ 16,7 milhões. “Isso prova o quê, Reinaldo?” Não gosto da palavra “prova”. Ainda não acusei a turma de ter cometido um crime. Prefiro assim: os números evidenciam que a política tornou multimilionário um pobretão. Mas também evidenciam que não está clara a fonte dessa riqueza.

Bolsonaro é o único?

Claro que não!

Ele é apenas mais um.

Logo, pergunte-se: o que o diferencia de boa parte dos seus pares?

Responda-se: é bastante mais ignorante e grosseiro do que a média dos deputados federais. Isso à parte, nada!

Lamento! Dados os ganhos regulares e de pai e filhos, não se consegue chegar àquele patrimônio nem com reza braba. Mas sigamos.

Mito? Que mito?
Os fanáticos do bolsonarismo criaram a ridícula palavra “bolsomito”. Cumpriria, desde sempre, indagar: “por quê?”  Reproduzo as três primeiras acepções da palavra “mito” no Dicionário Houaiss:

1- relato fantástico de tradição oral, geralmente protagonizado por seres que encarnam, sob forma simbólica, as forças da natureza e os aspectos gerais da condição humana; lenda, fábula, mitologia;
2 – narrativa acerca dos tempos heroicos, que geralmente guarda um fundo de verdade;
3 – representação de fatos e/ou personagens históricos, frequentemente deformados, amplificados através do imaginário coletivo e de longas tradições literárias orais ou escritas

Em quais delas se encaixa o fabuloso deputado?

Que riscos ele correu?

Quais são seus feitos extraordinários? Seus seguidores não conseguem, porque inexiste, nem mesmo lembrar um projeto de sua autoria, embora esteja entrando no 29º ano de mandato.

Razão do desespero
Até a semana passada, Bolsonaro responderia com uma grosseria qualquer a essa ou àquela crítica, desqualificando o interlocutor e pronto! Uma pergunta que não fosse do seu agrado, como sabemos, já era pretexto para uma canelada. Como é mesmo? Em entrevista à Folha, afirmou, por exemplo, que usava o auxílio-moradia para “comer gente”… De toda sorte, passava a imagem do homem impoluto, que nem sombra fazia, tal a sua transparência. Sua estupidez decorreria de sua sinceridade. Suas palavras reproduziriam a indignação do homem comum…

Notem: para chegar ao segundo turno, ele tem de conquistar apoios fora da faixa de seus sicários. A extrema-direita caipira que o aplaude e venera deve corresponder, eu chuto, a uns 30% das intenções de voto nele declaradas: algo em torno de 6% do eleitorado. Ele só está em segundo lugar nas pesquisas porque granjeou simpatias fora do nicho da boçalidade extremista, onde se acoitam armamentistas, perseguidores de minorias sociais e “haters” profissionais.

Sim, também existe o voto bolsonarista do homem comum, do trabalhador pobre, do classe-média desesperançado. Essa gente gosta — ou gostava — de acreditar que partilhava com o “mito” mais do que algumas ideias simples e erradas para problemas difíceis. O deputado seria um deles, simples como eles, lutador como eles, discriminado como eles.

Ocorre que esse figurino não combina com um patrimônio multimilionário. Esse figurino não combina com o contumaz recebedor de auxílio-moradia, embora ele não precise do benefício. Esse figurino não combina com o deputado que mantém há 15 anos, como funcionária da Câmara, uma senhora que lhe presta serviços domésticos em uma propriedade de veraneio, mulher de seu caseiro…

Bolsonaro sabe que, fora dos bolsões do fanatismo, começa a se desfazer não o “mito”, mas a mistificação. E se conseguiu isso com um simples — embora certamente trabalhoso — levantamento de propriedades em cartórios. Será que o deputado resiste, por exemplo, ao exame da máquina gigantesca que movimenta seu nome da Internet e tenta calar seus críticos? A ver.

O Bolsonaro a que tinha aderido a parte desavisada do eleitorado não combina com o homem de R$ 16,7 milhões. Nos últimos 28 anos, ele só teve uma atividade remunerada conhecida: a política.

Recoloco a questão: “Bolsonaro é o único?” Claro que não! Ele é apenas mais um. Logo, pergunte-se: o que o diferencia de boa parte dos seus pares?

Seria o canibalismo?

Afinal, ele se confessou um comedor “de gente”.

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