Gramática da melancolia tucana. É fácil ter um candidato; é difícil ter uma candidatura

er uma candidatura implica lidar com os limites do real. E não há lugar para os devaneios. O Conselheiro Acácio, nesse caso, costuma dizer, com aquele ar sapiente que lhe confere o senso de obviedade, que uma candidatura sabe que as consequências vêm sempre depois

Publicada: 06/12/2017 - 16:47


É fácil ter um candidato. É muito difícil ter uma candidatura.

Ser candidato conjuga dois atos de vontade: a de quem se lança e a da agremiação.

A candidatura já é fruto de uma vontade coletiva — e, no caso, o tamanho dessa coletividade faz toda a diferença.

Ser candidato comporta sonhos, devaneios, muitas orações subordinadas adverbias condicionais — “se eu for presidente”, “se eu vencer” — escoltadas pela devida oração principal, com verbo no futuro: “Eu farei, realizarei, moverei montanhas, convencerei Maomé…”

Ter uma candidatura implica lidar com os limites do real. E não há lugar para os devaneios. O Conselheiro Acácio, nesse caso, costuma dizer, com aquele ar sapiente que lhe confere o senso de obviedade, que uma candidatura sabe que as consequências vêm sempre depois.

O PSDB tem um candidato já: é o governador Geraldo Alckmin.

Mas o PSDB está alvejando a tiros de irresponsabilidade a sua candidatura.

A candidatura, diga-se, quase sempre termina com uma gramática do passado, articulando o chamado “consecutio temporum” do que já não mais pode ser, uma vez que são muitos os candidatos, mas realmente poucas as candidaturas — no caso do presidencialismo, só uma é bem-sucedida. E lá fica o vivente a ver futuros no passado, coitado: “Sonhei, sonhava, sonhara, tinha sonhado… que o Brasil fosse…” E há outras formas de expressão de uma irrealização no passado que deixou um futuro por vir.

Por que começar o texto com uma digressão gramatical? Para tornar menos aborrecida a lenga-lenga tucana sobre a reforma da Previdência. O partido marcara para hoje uma reunião da Executiva Nacional para cuidar do assunto. Não aconteceu por falta de quórum. Aliás, já se havia anunciado previamente o boicote.

Alberto Goldman, presidente interino do partido, que faz o possível para levar adiante o barco, admitiu que um grande número de tucanos está “vacilando”. Mas notem: não empregou o verbo em seu sentido hoje mais usual, que tem no neologismo “vacilão” o seu substantivo, empregado às vezes, como adjetivo, mais eloquente. Originalmente, “vacilar” é não ter muita firmeza de uma coisa ou do seu contrário, ir de um lado para o outro, demonstrar certa fraqueza. Outro sentido, este desaparecido, é provocar ou sofrer dano…

O “vacilão”, como sabem, é o sujeito que faz bobagem por imprudência, imperícia, covardia ou esperteza malsucedida.

Goldman empregou a palavra em seu sentido tradicional. Vejo “vacilões” às pencas no PSDB em sentido derivado.

Falta-lhes tudo: objetividade, leitura da realidade, coragem…

A pior coisa que pode acontecer ao país, e também ao PSDB, é a reforma da Previdência empacar.

A pior coisa que pode acontecer para o PSDB apenas é o governo Temer fazer a reforma sem a ajuda do partido.

E o candidato com isso?

E a candidatura com isso?

Bem, o PSDB está deixando claro, com seus vacilos em sentido tradicional e seus vacilões em sentido derivado que prefere uma caminhada sem o PMDB. Articulará, então, como força que se quer hegemônica as alianças, com muitos cafezinhos e seduções ou embargos auriculares, ignorando aquela que é a principal agenda do futuro do Brasil.

“O PSDB desejava que seu candidato fosse o nome de união do centro”.

Mas vieram os vacilos e os vacilões.

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