A reforma trabalhista, a ética da convicção, a da responsabilidade e os bons de bico

Líder do governo no Senado quer substituir o fim imediato do Imposto Sindical por uma extinção gradual. Não há mal nenhum nisso se for o preço para se fazer a reforma

Publicada: 04/07/2017 - 16:46


Na semana passada, o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), defendeu que a proposta de reforma trabalhista substitua o fim imediato do imposto sindical pela extinção gradual do dito-cujo. Afirmou: “Recomendamos ao Poder Executivo que estude um modelo de extinção gradual da contribuição sindical obrigatória, de forma a assegurar o planejamento financeiro e o adequado funcionamento das entidades sindicais e patronais”.

O que eu acho? O de sempre! O imposto sindical é uma excrescência fascistoide e tem de acabar. Mas também não sou um bovarista ou um platônico de botequim. Um dos elementos que sempre entram na minha análise são as dificuldades reais do mundo real. Estivesse numa tertúlia acadêmica ou num debate sobre princípios, não flertaria jamais com algo parecido com as considerações de Jucá. Mas estamos falando de política. Estamos falando de uma prática pautada pela ética da responsabilidade.

A ética da convicção expressa aquilo em que de fato acreditamos, os nossos valores, o lugar onde ancoramos nossas utopias. Embora, para Max Weber, essas duas éticas sejam inconciliáveis, já que a expansão de uma exige o encolhimento da outra, ambas estão presentes na nossa vida.

Alguém que fosse puramente convicção e jamais cedesse a imposições do mundo real acabaria encerrado em seu próprio universo, pouco importando se é um estoico, disposto a encarar com pessimismo compassivo, em silêncio, os desatinos do mundo, ou um sujeito irascível, com quem é impossível estabelecer um diálogo sem que isso ofenda as suas crenças.

Por outro lado, um indivíduo inteiramente pautado pela “ética da reponsabilidade”, por aquilo que se considera necessário na ação coletiva, pode facilmente se transformar num monstro amoral, pervertido pela máxima — que Maquiavel nunca defendeu como norte — de que os fins justificam os meios. Por outro lado, e Max Weber atentou para isto, quem nunca leva em consideração os fins também não tem condições de dosar os meios.

Eu, por exemplo, jamais seria um político porque faço menos concessões do que pede essa atividade. E que se note: quando falo em concessões, não estou me referindo a atividades criminosas.

Voltando ao ponto
Qual reforma trabalhista é melhor? Desde logo, dada a ética da responsabilidade que pauta a política, cabe responder: é a reforma possível! E qual é a pior? A impossível, aquela que ficasse só no papel e que servisse ao culto de um grupelho.

Se o governo tiver de ceder nesse particular para aprovar a reforma trabalhista, que traz muitos outros benefícios, que o faça.

Tucanos…
Os tucanos… Ah, os tucanos! É o partido que se mostra mais resistente a uma eventual mudança do texto ou a uma correção posterior, que o governo pode baixar por Medida Provisória. Este partido está se tornando mesmo a cada dia mais notável.

Quando não está, por intermédio de parte dos seus membros, tentando derrubar o governo, dando curso a uma articulação golpista asquerosa, comparece ao debate para falar, ora vejam!, em nome das convicções em matéria de reforma. Com uma das mãos, ajuda a desestabilizar o governo, enfraquecendo-o na condução das reformas; com a outra, grita: “Não podemos ceder!”.

Síntese: talvez esses tucanos queiram um governo que não se mostre disposto a negociar porque, assim, cai com mais facilidade.

Que coisa! Nem o mais pessimista dos analistas apostaria que a crise do petrolão e a derrocada do governo petista acabariam levando o PSDB à extinção.

Extinção? É. Como leitura da realidade, o PSDB acabou. A muitos falta a necessária convicção. A um número ainda maior, falta responsabilidade. Apesar de algumas mentes brilhantes que por lá sobraram.

 

 

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