Distintos e combinados: Duvivier e Bolsonaro! Truculência mais eficaz que vença!. Sem reféns

Ambos gravam o momento da condução coercitiva de Jorge Picciani e o tornam público; a coincidência tem mais importância do que parece

Publicada: 14/11/2017 - 17:31


O político Duvivier e o humorista Bolsonaro: ambos investem na radicalização e no pega-pra-capar. São litigantes que se opõem e se complementam

Tanto o humorista Gregório Duvivier, do agitprop esquerdista das redes, como o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que comanda o agitprop de extrema-direita, também nas redes, presenciaram o momento em que a Polícia Federal aborda o deputado estadual Jorge Picciani (PMDB), presidente da Assembleia Legislativa do Rio. Ambos gravaram vídeos. Ambos os tornaram públicos. Ambos foram judiciosos sobre a operação e sobre o conduzido. Ambos buscavam insuflar a sua galera. Como escreveria Trotsky, “diferentes e combinados”. Como digo eu: opostos e combinados.

Nota talvez desnecessária, mas lá vai. Ainda que não existisse contra Picciani uma só acusação criminal, ele encarnaria boa parte do que execro em política. Dado o poder que tem, concentra certamente parte da responsabilidade pelos descalabros de que é vítima o Estado do Rio, que entrou em falência. Não fosse a paralisia do resto do país que a intervenção federal ensejaria, esta seria imperativa. Há muito o Rio perdeu a capacidade de se autogovernar. Tudo o que é ruim no resto do país se tornou pior ali. A elite fluminense — ou carioca, para ser mais preciso — percebeu tarde demais os desarranjos da gestão de Sérgio Cabral. E assim foi porque, durante um bom tempo, por lá, a seção de Esportes & Negócios dos poderosos da comunicação local se sobrepôs às seções de polícia, de cidades, de política… Imaginem: os cariocas foram até convencidos de que existia mesmo um troço chamado “UPP”: Unidade de Polícia Pacificadora. E não se deram o trabalho, a maioria ao menos, de perguntar quem estava sendo pacificado com quem.

Se perguntarem a minha impressão sobre Picciani em qualquer assunto, direi sem hesitar: “Culpado!” E “culpado” seja lá do que for. Mas calma lá! Não gostamos de Picciani, suponho, porque temos a certeza — e os órgãos de investigação precisam evidenciá-lo — de que ele desrespeita a lei. E deve responder segundo os rigores e garantias da lei.

Personalidades públicas como Bolsonaro e Duvivier estão querendo empurrar a política para a briga de rua, para o confronto aberto. Ambos estão pouco se lixando para o Estado de Direito. No seu mundo, não existe mediação. O comediante deve ter a certeza de que existe uma central de conspiração contra os interesses dos desvalidos, uma categoria que lhe é certamente estranha, mas que ele adotou por dever de uma suposta boa consciência, que costuma ser sinônimo da tolerância do gerente com o cão que insiste em rondar o restaurante dos iluminados. A imagem original,, com adaptações, é de Fernando Pessoa, antes que algum lido me acuse de plágio. Esse esgar de militância política é mais comum no Rio, onde sobrenome e fidalguia, necessariamente antes de cruzar o túnel Rebouças, ainda são importantes. Dizer-se um amigo do povo, ou ser amigo do Marcelo Freixo, tanto faz!, é coisa que a “noblesse oblige”.

Jair Bolsonaro encarna o extremo oposto dessa tolerância com as “outras civilizações” que caracteriza os pensadores com vista para o mar. Se, para aqueles, tudo é “normal”, muito especialmente o excepcional em matéria de gostos e costumes, para este normatizador da vida alheia, o que foge das suas estreitezas deve ser combatido como ameaça, mal, agente patogênico. Quantas vezes se depreende da fala de Bolsonaro que, claro!, ele nada tem contra homossexuais em si. Ele só os acha perigosos porque, segundo o deputado, são tendentes a espalhar os seus costumes, a corromper a educação, a desestruturar as famílias. Aliás, segundo sua concepção não revista, que eu saiba, se a criança tem uma boa educação, numa família tradicional, não corre o risco de ser gay ou lésbica. Assim, é a falta de disciplina que conduz àquilo que o deputado julga ser uma escolha. E, por óbvio, uma escolha errada. Também ele vê uma central de conspirações a ser combatida.

E qual é a diferença entre eles? Nenhuma! Ambos têm pretextos muito eloquentes para o exercício da intolerância e para incentivar não o julgamento dos culpados, mas o seu linchamento. “Mas qual é o problema se culpados são?” O problema é esse comportamento chegar ao poder. No começo, cassam-se os culpados. Depois, aqueles que os poderosos de turno consideram culpados, ainda que sem julgamento. Em seguida, os que apenas incomodam. E chega a hora em que se passa a policiar o pensamento — se bem que isso já está em curso.

Picciani é matéria política precária demais para que se rompa o princípio da civilidade e dos direitos garantidos numa democracia. “Ah, a filmagem foi feita em ambiente público…” Pois é. Nem tudo o que nos é permitido nos convém.

“A gente espera que a Polícia Federal continue fazendo esse bom trabalho. A corrupção tem que ser combatida e tem de ser com radicalismo mesmo”, afirmou Bolsonaro.

Para Duvivier, a condução coercitiva — suponho que ele imaginava fosse prisão — é “um momento aguardado pelo povo do Rio”. E depois: “Chegando ao Rio, recepção calorosa da PF”. Num vídeo do Porta dos Fundos, que ficou famoso, a PF é apresentada como uma força destinada a perseguir petistas, Lula e Dilma em particular. Ou por outra: ele saúda agora a força que prende aqueles que tem por adversários e demoniza aquela que prende os seus aliados u vizinhos de ideologia. São seus critérios de justiça.

E creiam: o humorista que se comporta como se deputado fosse (um representante do povo) e o deputado que se comporta como humorista (ele só não tem noção de sua graça trágica) se estreitam num abraço insano. Ambos são personagens da miséria a que foi conduzida a política brasileira. Para se livrar dos “Piccianis” da vida alguém teve uma ideia genial: “Em vez de a gente seguir a lei e a civilidade, por que não desprezá-las”?

Lula estaria no segundo turno hoje. E Duvivier certamente se considera contemplado em suas escolhas. Bem, Bolsonaro é ele próprio personagem agraciado, por ora, pela pantomima que inventou e que a tantos seduz. E que gente como Duvivier alimenta.

Eles emulam, se merecem, se estimulam e se satisfazem.

O país que se dane. A fidalguia nunca será atingida e continuará a ter pena de nós. A estupidez justiceira nunca fenecerá — afinal, nunca nos faltarão os criminosos.

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