Lá vem o mano, o mano Caetano dos reacionários do miolo mole

Quarenta e oito anos depois do exílio, Caetano continua mano, como nos tempos da ditadura, mas já é avô. E em plena democracia.

Publicada: 02/06/2017 - 6:53


“Lá vem o Mano! Meu mano Caetano!
Lá vem o Mano! Meu mano Caetano!
Ele vem sorrindo, ele vem cantando.
Ele vem feliz, pois ele vem voltando”

A música, de Jorge Benjor, aparece no disco “A Tua Presença” (1971), de Maria Bethania, ano em que o cantor e compositor baiano retornou ao Brasil para um show na TV Tupi, ao lado de João Gilberto e Gal Costa. Perseguidos pelo regime militar, Caetano e Gilberto Gil foram presos no dia 27 de dezembro de 1968, 14 dias depois da decretação do AI-5. Em julho de 1969, os dois amigos e suas respectivas mulheres deixavam o Brasil rumo a Londres. O retorno definitivo se deu em janeiro de 1972.

Quarenta e oito anos depois do exílio, Caetano continua mano, como nos tempos da ditadura, mas já é avô. E em plena democracia. Sua neta mais velha tem 12 anos. Não demora muito — longa vida para ele! —, torna-se bisavô. Mas o miolo, como diagnosticou José Guilherme Merquior, parece a cada dia mais mole. Virou uma espécie de oráculo do movimento “Fora Temer, Diretas Já”.

Um vídeo feito na casa do artista circula por aí. Sentado numa cadeira, meio empertigado, escandindo sílabas, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) defende que o golpe contra Michel Temer seja desfechado até o dia 26 de junho. Fala a duas ou três pessoas. E Caetano? Ah, o quase-bisa vai dedilhando o seu violão (foto), despretensiosamente, assim como quem diz “hoje é sexta-feira”. Vocês sabem como são esses artistas… Todos têm um lado selenita. Vivem no mundo da lua. Deveriam seguir os passos de Ismália…

Randolfe, que certamente não é um mentiroso, diz mentiras em penca a seus interlocutores, que, mais ignorantes do que o mestre, ficam embasbacados. Segundo o senador, Temer tem de cair até o dia 26 porque é a data marcada pela ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República) para a eleição — inconstitucional, diga-se! — da lista tríplice a ser enviada ao presidente para a escolha do substituto de Rodrigo Janot, que não será candidato.

E Randolf vai enumerando inverdades sobre a Lava Jato — como a afirmação de que Temer cortou dinheiro da operação — e assegura aos presentes: se Janot cair, a Lava Jato acabou. Acontece que Janot não vai cair. Eles simplesmente não será reconduzido porque nem candidato é — ainda que candidato a uma eleição ilegal.

Agora, ficamos sabendo que artistas de grupos antagônicos, como o “Não vai ter Golpe” — ainda em favor de Dilma — e o “#MoroBloco”, cujo nome dispensa tradução, se juntaram na quarta, na casa de Paula Lavigne, para anunciar uma frente. Todos agora seriam “Temer jamais”. Que coisa mais fofa! O antidilmista mais saliente era Marcelo Serrado, que faz o papel de Sergio Moro num filme sobre a Lava Jato. Do outro lado, havia um monte de famosos: além de Caetano, viam-se Camila Pitanga, Wagner Moura, Tico Santa Cruz…

Com peculiar inteligência e profundidade, Paula, ex-mulher de Caetano e sua empresária, resumiu a coisa: “Ninguém falou em Aécio, a parada é ‘Temer, jamais’. Todo mundo quer se livrar deste homem para ver se a gente começa a falar sobre futuro.”

Se Temer, vítima de uma conspirata criminosa, cair, a gente sabe o que vem pela frente. A economia, que deu um sinal positivo no primeiro trimestre, depois de dois anos de encolhimento, dificilmente engata um ciclo virtuoso. As primeiras vítimas seriam as reformas. Sem elas, não se conseguem juros menores. Também não haverá dinheiro para investir. Os pobres ficarão ainda mais pobres.

É o futuro que os nossos artistas anseiam.

Caetano é o “líder intelectual” da turma toda. Em 1968, lutando contra os militares e a ditadura. Em 2017, lutando contra os pobres, que são os que mais sairão perdendo caso aconteça o que quer essa gente.

Eu tenho uma ideia: todos esses artistas deveriam fazer greve. Aproveitariam para dar uma esticada a Nova York. Quem sabe um passeio no Central Park com Joesley Batista…

 

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