O cinegrafista Gil Moura conta a sua experiência de trinta anos com o “racista” William Waack

Nesta caminhada, fazendo imagens e contando histórias, poucos colegas foram tão solidários quanto o velho Waack. Ele faz parte dos pouquíssimos globais que carregam o tripé para o repórter cinematográfico preto ou branco. Na verdade, não me lembro de ninguém na Globo que o faça. O velho sabe para que serve cada botão da câmera e o peso do tripé

Publicada: 13/11/2017 - 9:06


William Waack: jornalista é, na verdade, a vítima, não o algoz. Poderia até ser acusado de fazer uma piada infeliz. Mas racismo? É uma acusação mentirosa. Sua vida, seu trabalho e suas convicções atestam o contrário

William Waack não é racista. Não o é de várias maneiras. E ainda pretendo voltar a este tema para perguntar onde estavam os movimentos negros, por exemplo, quando Paulo Henrique Amorim afirmou que o jornalista Heraldo Pereira só é bem-sucedido na Globo por ser um “preto de alma branca”. A Justiça brasileira, acusada frequentemente de omissa no tema, condenou o autor por injúria racial. Os ditos movimentos não quiseram se indispor com alguém que, hoje ao menos, se porta como se fosse de seu campo ideológico. Tampouco os veículos de imprensa se interessaram pelo assunto.

É um absurdo que se tenha de voltar a questões fundadoras de uma democracia de direito. Será que todos os que condenam o racismo de megafone na mão o combatem no seu dia a dia, na sua prática diária? Uma piada, em si boboca, feita em privado — mas tornada pública por circunstâncias que envolvem má-fé e cálculo —, pode resumir décadas de trabalho, substituí-las, mesmo tendo o seu autor pedido desculpas de forma clara e inequívoca? Mesmo que se saiba não ser ele racista?

E que primor de anti-racismo o tal rapaz, não é mesmo — isso a ser verdade o que se veicula por aí? Ainda tenho sinceras dúvidas. A minha hipótese ainda é a de que o troço vazou de dentro da Globo, no exato dia em que a eleição de Donald Trump completava um ano. E alguém teria se encarregado de lavar a origem. Mas vá lá. Tomo como verdadeira a versão que saiu por aí. Então, enquanto era funcionário da emissora, o tal guardou o vídeo: sabem como é… Ele achou que a causa não valia um emprego. Seu anti-racismo e sua entrega militante têm alguns limites, não é? “Os irmãos” poderiam esperar a sua conveniência pessoal antes de botar a boca no trombone…

Tenha paciência! Mas resolvi voltar ao assunto por outra razão.

Uma das coisas erradas que se disseram sobre William é que ele é de trato difícil, ríspido, com chefes e subordinados. Com chefes, não sei. Com subordinados, é certo que não. Até porque, dada a forma como se estruturam TVs e jornais, jornalistas quase nunca são subordinados de âncoras. Eu mesmo já fui acusado de ser “boca-dura” com quem está acima de mim na hierarquia. Não considero verdade, mas não sou dono da impressão dos outros. Sou franco. Mas de uma coisa não tenho dúvida: nunca fui grosseiro, indelicado, chiliquento com quem está abaixo na hierarquia. Tenho horror a grosseira. Costumo dizer que a competência é cordata. A incompetência é que gosta de sair dando esporros a três por quatro, quase sempre para se livrar de suas próprias irresponsabilidades.

Circula no Facebook um testemunho de Gil Moura. Ele trabalhou com William durante muito tempo. Reproduzo abaixo como está lá. Vale a pena ler.

“Eu sou preto. Já trabalhei com ele [William] na França, em Portugal, na Espanha, na Índia e em São Paulo.

Nesta caminhada de 30 anos, fazendo imagens e contando histórias, poucos colegas foram tão solidários quanto o velho Waack. Ele faz parte dos pouquíssimos globais que carregam o tripé para o repórter cinematográfico preto ou branco. Na verdade, não me lembro de ninguém na Globo que o faça. O velho sabe para que serve cada botão da câmera e o peso do tripé.

Quando um preto sugere um restaurante mais simples, ele não dá atenção porque paga a conta dos colegas que ganham menos no restaurante melhor. Como ele fez piada idiota de preto, ele faz dele próprio, suas olheiras, velhice etc.

O que a Globo mais tem são mocinhos e mocinhas de cabelos arrumadinhos, vindos da PUC ou da USP, que são moldados ao jeito da casa.

Posso dar o exemplo de quando estávamos gravando uma passagem no meio da rua, onde havia um acidente, e sugeri a uma patricinha repórter que prendesse o cabelo devido ao vento. Ela o fez. Gravamos na correria porque estávamos a duas horas do RJ. No dia seguinte, na redação, que aparece no cenário do JN, ela comenta:

— Você viu a matéria ontem?

— Não.

— Sobrou uma ponta do cabelo, fiquei parecendo uma empregada doméstica.

Ao que respondi:

— Eu sou repórter cinematográfico, cabeleireiro não havia na equipe.

Posso lembrar-me de muitas coisas como, quando fazíamos uma matéria para o Fantástico, uma mesa de discussão, e, ao ouvido, ouço o repórter falar.

— Põe aquela pretinha mais para trás.

Isto faz parte do cotidiano. Os verdadeiros racistas estão por todas as partes, mas são discretos. Também tem a famosa, que chegou ao prédio onde vive, e uma moradora (namorada de um amigo) segurou o elevador.

A famosa negra não agradeceu, e ficou de braços cruzados. O elevador começou a subir.

Jornalista Famosa:

— Você não sabe qual é o meu andar?

— Sei, mas não sou sua empregada.

No vídeo, ela é uma “querida”, jamais trata mal o entrevistado, se estiver gravando…

Voltando ao racista William Waack. Quando íamos para a Índia — eu vivia em Lisboa — fui três dias antes para Londres, de onde partiríamos para Dheli.

Eu ia ficar em um hotel, mas o racista que havia trabalhado comigo até então somente uma vez em Cannes convidou-me para ficar em sua casa, onde vivia com esposa e dois filhos, esposa essa a quem ele, preconceituosamente, chamava de “flaca” devido à sua magreza. Eu via como uma forma de carinho.

Comemos, bebemos bom vinho e, em nenhum momento, alguém quis se mostrar mais erudito que eu, nem mais racista.”

Gil Moura

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