A Globo tentar depor Temer não afeta a honradez de profissionais sérios e independentes

Fiz uma crítica à linha editorial adotada por todos os veículos das Organizações, como se fosse ordem unida militar; é claro que existem, e em grande número, os profissionais que mantêm sua independência

Publicada: 18/06/2017 - 9:02


Fiz aqui, e mantenho, uma crítica muito dura à linha editorial que todos os veículos das Organizações Globo adotaram desde aquele vazamento do que não estava lá, a saber: não havia, na gravação que se encontra na raiz desta crise, a tal anuência do presidente Michel Temer com a suposta compra do silêncio de Eduardo Cunha.

A coisa toda tem a cara de uma Blitzkrieg. Era para derrubar o presidente na primeira semana. Ele não caiu. Agora, estamos na fase de acelerar o falatório. Depois da delação, que importância tem a entrevista do bandido Joesley Batista, o autor de 245 crimes? O que a sua verborragia acusatória acrescenta ao conjunto da obra? Nada! Um veículo do grupo, a “Época”, serve para esquentar o noticiário do outro, a TV. E há as rádios, os jornais, o portal… Neste domingo, haverá mais Joesley no Fantástico.

Michel Temer é o primeiro presidente que a Globo quer derrubar desde João Goulart. Todos os outros, convenham, ela se esforçou para manter. Demorou para desembarcar de Collor. Foi uma pouco mais rápida com Dilma, mas nada, assim, tão fulminante como se vê com Temer.

Bem, meus caros, que fique claro: fiz uma crítica genérica a essa espécie de ordem unida que se percebe nos veículos do grupo.

É evidente que essa generalização não se traduz numa crítica a todos os profissionais que trabalham nos diversos veículos e programas jornalísticos. Reconheço a existência de profissionais independentes, de primeira linha. Não vou aqui nominá-los para não parecer que me outorgo o direito de dizer quem é bom e quem não é; quem é sério e quem não é; quem é respeitável e quem não é. Ou que faço uma seleção que tem como filtro relações de amizade.

E notem: parto do princípio de que existam, sim, pessoas com a mais genuína e clara convicção de que Michel Temer deve cair. E têm todo o direito de ter essa opinião. O que me estranha, sobretudo naqueles programas, vamos dizer, colegiados, de debates, é a ausência de contradição. O que me causa espécie é ver comentaristas a ancorar o “fora Temer”, ainda que dito de maneira mais delicada, nesta lei ou naquela, mas ignorando as espantosas agressões à legalidade que esse processo carrega desde a origem.

A gravação, senhores, o elemento primitivo dessa conversa, é uma afronta a uma cláusula pétrea da Constituição. Rodrigo Janot e Edson Fachin, sob o olhar complacente (ou concupiscente?) de Cármen Lúcia, violaram o fundamento, também constitucional, do juiz legal. Mais: sem nenhuma investigação, toma-se uma delação como critério de verdade absoluta. E isso vindo de um homem que passou boa parte da vida trapaceando, cometendo crimes, violando todos os fundamentos da decência.

Não, senhores! Para derrubar um presidente, é preciso um pouco mais do que isso. Mas essa já é conversa para outro post.

Quero aqui deixar claro que não pretendi nem pretendo atacar a independência e a honradez dos jornalistas que trabalham para as empresas do grupo. Eu mesmo conheço alguns que estão entre o que essa profissão pode produzir de melhor, inclusive no caráter. O que fiz foi apontar a inclinação editorial do grupo, que não esconde — ao contrário: defende a posição — a sua vontade: quer a deposição do presidente.

Noto, no entanto, que uma posição editorial é diferente de uma campanha em ordem unida. A primeira pertence ao terreno jornalístico; a outra, ao da guerra.

Minha deferência e meu abraço àqueles todos que seguem a divisa que sigo: posso não falar tudo o que quero, mas só falo o que quero.

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