PESQUISA: “Quem é mais macho? Um abacaxi ou uma faca? Um ônibus escolar ou uma lâmpada?”

Instituto de pesquisa, em suposta pesquisa, pergunta quem é foi pior para o Brasil: Dilma ou Temer? Bem, a indagação é tão estúpida quem nem errada consegue ser

Publicada: 17/07/2017 - 16:45


Estava eu qual Inês de Castro, de Camões, em “Os Lusíadas”, “posto em sossego, de meus anos colhendo doce fruto”, quando uma mensagem salta ao meu celular. Aí pensei: “Ah, linda Inês, que só podia ficar por algum tempo “em seu engano ledo e cego” porque celular não havia, não. A mensagem pulou na tela quando eu me encontrava em Dois Córregos, minha terra natal, um tanto distraído, ensinando aos “montes e às ervinhas o nome que no peito escrito eu tinha”.

É, leitor amigo, eu faço isto às vezes: para me proteger do lixo, recorro à poesia, mais ou menos como o legista, e agora vou ao outro extremo, pode recorrer a uma pomada de cânfora para driblar o cheio da matéria com a qual trabalha. As coisas com as quais um jornalista é obrigado a lidar nem sempre se encontram em bom estado, não é? Mas vamos à notícia que resolveu atravessar meu distanciamento bucólico.

Estava lá a questão com a resposta, colhida por um instituto de pesquisa: “Quem foi pior para o país, Dilma ou Temer?” Hein? Como? Que pergunta é essa? Sim, meus caros, não existe resposta certa para perguntas que nem erradas conseguem ser.

Se um clássico da literatura não me socorre, tento o viés surrealista, antes de recorrer à pomada de cânfora. A performer americana Laurie Anderson lançou um filme em 1986, “Home of the Brave”, que depois virou disco. No tempo em que as coisas ainda viravam disco. Foi lá pelo tempo em que eu, jovem, me ocupava desse tipo de vanguarda.

E ela então indagava: “Quem é mais macho? Um abacaxi ou uma faca?” E ela respondia ser o abacaxi. Presumindo que pudesse não estar sendo muito clara, fazia uma segunda pergunta para, sem trocadilho, tentar iluminar a primeira. “Quem é mais macho? Um ônibus escolar ou uma lâmpada”?

Ah, sim: havia interpretações múltiplas para o significado da “faca” e do “abacaxi” — sobre o ônibus escolar e a lâmpada, nem tanto. A verdade é que nada daquilo fazia sentido. Mas, convenhamos, não havia uma intenção dolosa na questão. Vanguardistas têm o direito de lançar questões incompreensíveis, para a satisfação intelectual daqueles que têm a pretensão intelectual de compreendê-los. É assim que se formam certos círculos intelectuais, especialmente nas artes plásticas. Todos julgam entender aquilo que ninguém tem a ousadia de explicar. Mas volto ao ponto.

No caso da pergunta sobre “Quem foi pior para o país” — e os que responderam à suposta pesquisa chegaram à conclusão de que há um empate —, não há surrealismo nenhum. Parece-me tratar-se de uma forma de dolo moral; quando menos, intelectual. Ainda continuam a fazer mais sentido aquelas perguntas de Laurie Anderson. Então vamos ver.

– Dilma deixou como herança um déficit primário que chegou a R$ 155,791 bilhões em 2016; no ano anterior, em 2015, já havia sido de R$ 111,2 bilhões. Temer conseguiu aprovar o teto de gastos. Não é o remédio para todos os males, mas põe um freio na loucura. Quem é mais macho? Um abacaxi ou uma faca?;

– Dilma deixou o governo com uma inflação de 9,28%. Temer deve fechar o ano com inflação perto de 3%. Aí alguém dirá: “Ah, foi à custa da recessão”. Como? Quem é mais macho? Uma lâmpada ou um ônibus escolar?;

– em 2016, a economia encolheu 3,6% — boa parte sob os auspícios de Dilma; no ano anterior, havia encolhido 3,8%; em 2014, havia crescido 0,1%. Com Temer, o crescimento foi retomado. Podemos chegar ao fim do ano crescendo perto de 3% na projeção anualizada; neste ano, haverá uma pequena expansão: de 0,3% a 0,5%. Quem é mais macho? Um tomate ou um cotovelo?;

– apesar da recessão brutal, Dilma deixou o governo com a taxa Selic a 14,25% ao ano. Temer deve chegar ao fim do ano com a taxa a 8,25%. Quem é mais macho? Um ferro elétrico ou um garfo?;

– quando Dilma deixou o governo, a exploração do pré-sal estava paralisada porque uma lei impunha participação da Petrobras, que a política de preços de combustível da preclara havia quebrado. No governo Temer, tal obrigatoriedade caiu, com projeto originalmente proposto pelo senador José Serra (PSDB-SP), e a extração foi retomada. Quem é mais macho? Um Chicabon ou um cabide?

– a petista quebrou, com determinação, zelo e convicção o setor elétrico, contra todas as advertências, algumas oriundas do seu próprio campo ideológico. Medida Provisória do governo Temer reorganizou o setor, que caminhava para o colapso. Esgotei a minha imaginação para perguntas exóticas.

– Temer conseguiu a aprovação, no Congresso, mesmo em meio a tiro, porrada e bomba, disparados por Rodrigo Janot e sua turma, da lei da terceirizações, da reforma trabalhista e da reforma do ensino médio. Nem se cuida aqui de falar de “direita” ou “esquerda”, mas de “avanço” e “atraso”!;

– Temer pode conseguir ainda uma mudança de paradigma: a reforma da Previdência. Sim, as colaborações premiadas de patriotas como Joesley Batista, Eduardo Cunha ou Lúcio Funaro podem encarecer sobremaneira o apoio da base ao presidente, minimizando a dita-cuja. Mas estávamos no caminho certo. Estamos agora no caminho possível.

E vem uma “pesquisa” para saber “quem foi pior para o Brasil, Dilma ou Temer?” Não dá! A pergunta não é surrealista, não. É uma pergunta delinquente. Quem faz tal indagação, levando a coisa ao extremo, teria coragem de perguntar ao povo alemão, logo depois do bombardeio de Dresden: “Quem mais prejudicou a Alemanha? Hitler ou os aliados?”

Deveria haver um limite para a estupidez. Mas, como sabemos, não há. Ou nós a combatemos, ou ela nos elimina.

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