PSDB despreza razões óbvias para ser governista em favor das secretas para ser oposicionista

Asseguro que os sonâmbulos do tucanato estão tomando todas as decisões objetivas que conduzem a uma derrota eleitoral. Se não acontecer, teremos de entender os mecanismos pelos quais o povo terá corrigido as besteiras feitas pelos políticos

Publicada: 14/11/2017 - 7:44


Bruno Araújo (PSDB-PE) está de volta à Câmara Federal. Ele deixou o Ministério das Cidades, uma das três pastas ocupadas pelo partido no governo Michel Temer. As outras duas são Relações Exteriores, com Aloysio Nunes Ferreira (SP), e Relações Institucionais, com Antonio Imbassahy (BA). A quarta, a de Direitos Humanos, cuja titular ainda é Luislinda Valois, não pode ser exatamente atribuída à cota partidária. Ela nunca foi uma pessoa atuante na legenda. É apenas filiada. De todo modo, janeiro de 2018 deve romper sem tucanos no governo. O mais curioso é que o calendário poderia se encarregar da questão. Mas a ala que decidiu transformar o governo Michel Temer em adversário está fazendo prevalecer o seu equívoco, ainda que esteja longe de ser hegemônica. O próprio Araújo deixa a Pasta com elogios à gestão.

Vamos lá. O presidente já emitiu sinais de que fará a reforma do ministério até meados de dezembro. Ministros que vão ser candidatos têm até abril para deixar o cargo. Nunes deve concorrer a uma nova vaga no Senado; Imbassahy vai se candidatar de novo à Câmara. Caso deixem mesmo o governo em dezembro, antecipa-se, assim, em quatro meses a saída. Mas isso satisfaz, vamos dizer, o curioso apetite oposicionista da ala tucana que, ao se negar a ver as razões óbvias para ser governista, prefere magnificar as razões secretas para ser oposicionista.

Já destaquei de sobejo os motivos que tem um partido político para apoiar Temer desde que não seja de esquerda. O presidente conseguiu aprovar, mesmo em meio ao bombardeio da Lava Jato, a medida que impõe teto de gastos; aprovou a Lei de Responsabilidade das Estatais; alterou o marco do pré-sal; retomou o programa de privatizações; reestruturou o setor elétrico, que Dilma havia destruído; recolocou a economia no caminho do crescimento e da geração de emprego; fez aprovar a reforma trabalhista, uma mudança que governos anteriores, em condições muito mais favoráveis, não tiveram a coragem de fazer; baixou a inflação na casa dos 10% para um patamar abaixo do piso — 2,7% na média de 12 meses… E fez tudo isso enfrentando a máquina organizada para derrubá-lo. Acrescente-se: a reforma política e a reforma da Previdência — esta ainda possível, embora mitigada — só não saíram em razão da contribuição dada pela holding JJ&F — Janot, Joesley e Fachin — à infelicidade do Brasil.

Assim, o tucanato não teria dificuldades para explicar por que é governista. Mas terá de dar nó no verbo para explicar por que passa a ser, então, oposicionista. Mesmo que Marconi Perillo venha a se tornar o presidente do PSDB, hipótese em que haveria mais tolerância interna, dá-se de barato que o partido estará fora da base. Que coisa! Tal decisão é um caso clássico de cruzamento malsucedido da vaca com o jumento. O híbrido nem dá leite nem puxa carroça. Os tucanos não poderão explorar a seu favor os aspectos virtuosos do governo Temer porque lá não estarão mais. E, se forem minimamente prudentes, também não vão atacá-lo. Ou terão de explicar por que lá estavam até havia anteontem.

As escolhas são tão inusitadas, admita-se, que até podem dar certo por acidente. O quadro político é de tal sorte desolador que pode ser que se crie uma onda em favor da prudência, com a qual pode se identificar a candidatura de Geraldo Alckmin. Se acontecer, insista-se, nada terá a ver com a decisão de romper com o governo. Esta continua essencialmente estúpida e sem explicação. A única justificativa plausível, obviamente, é o fato de que parcelas majoritárias do eleitorado são críticas do governo, embaladas mais pelo massacre noticioso de que o presidente foi vítima do que pelos fatos. Sob qualquer critério que se queira, o governo Temer é absurdamente melhor do que o governo Dilma, por exemplo. Mas pesquisas ainda apontam o contrário. Cada um tenha lá a sua opinião. Mas opiniões podem, sim, estar erradas.

Acho que essa percepção tende a mudar de forma relevante até meados do ano que vem, o que torna ainda mais injustificado o rompimento do PSDB com o governo.

Reitero: este texto não é uma previsão: “Ah, Alckmin vai perder a eleição…” Há fatores vários em curso. Mas também não se trata do exercício que consiste em botar um pé em cada canoa, e qualquer que seja a previsão, o analista estará certo. Até porque só videntes e bruxos fazem previsões. Eu lido com fatores objetivos. Asseguro que os sonâmbulos do tucanato estão tomando todas as decisões objetivas que conduzem a uma derrota eleitoral. Se não acontecer, teremos de entender os mecanismos pelos quais o povo terá corrigido as besteiras feitas pelos políticos.

Vamos ver como os tucanos pretendem se reinventar na condição de oposicionistas. Só espero que não venham com o papo-furado do “não poderíamos conviver com um governo de culpados”. Até porque o mesmo sistema de ilegalidades e decisões atrabiliárias que assaltou o governo Temer também tragou o tucanato. Temer não é o responsável pela impopularidade do PSDB.

De resto, é tarde demais para o partido disputar com o PT o campeonato da impostura, certo?

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