PT na Paulista: ninguém vai ao enterro da última quimera do lulismo; ato foi um baita fiasco

Oficialmente, os organizadores falaram em 15 mil pessoas. Quem entende no riscado sabe que, com boa vontade e largueza de espírito, poder-se-ia falar em perto de... três mil pessoas

Publicada: 21/07/2017 - 4:28


Lula discursa na Paulista para meia-dúzia de gatos pingados, ao lado de Gleisi Hoffmann, a incontida senadora-ré (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

O diabo citador me provoca: “Vai, Reinaldo, lasca um trecho de “Versos Íntimos”, de Augusto dos Anjos, em Luiz Inácio Lula da Silva, vai…  Ao que pondera o anjo da sobriedade: “Não faça isso! Fica com cheiro de clichê”. O coisa-ruim rebate cheio de ironia: “Só mesmo no mundo de um coxinha com asas, aquele soneto, que era “dos Anjos”, porém Augusto, é citado a ponto de ser clichê.” E ainda acrescentou: “Tem mais, né, Reinaldo? Quem gosta de clichê é o bonzinho aqui do lado. Por ele, o mundo seria uma novela rural das 19h. Você sabe que eu gosto é de aventura, de filme tarja preta…”

Deixei-me convencer pelo melhor argumento, não necessariamente pelo melhor propósito abstrato. O tinhoso venceu essa pequena e irrelevante peleja. Então homenageio o chefão petista com estas palavras do soneto “Versos Íntimos”, numa alusão às duas dúzias de gatos-pingados que apareceram nesta quinta à Avenida Paulista para pedir “Fora, Temer”, diretas-já e protestar contra a condenação do demiurgo. Como é mesmo, poeta?

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Pois é… O diabo citador tinha razão. Depois dessa, Lula deveria se aposentar. Mas ele não sabe fazer mais nada além de comício. Subiu no palanque há 32 anos, quando o PT foi fundado, e de lá nunca mais desceu.

Vamos ver. O PT, PCdoB, CUT, MTST, MST e uma miríade de esquerdistas marcaram um protesto na Avenida Paulista. Até os adversários jurados do partido esperavam um público que não submetesse Lula à humilhação. Afinal, Sérgio Moro não pegou leve com o companheiro: nove anos e meio de cadeia, multa de R$ 16 milhões, bloqueio de bens até o valor da dita-cuja… A receita para consagrar o mártir candidato estava dada. Então era o caso de chutar: “Ah, quem sabe uns 30 mil na Paulista… Ainda mais que os petistas espalham que o chefão estará presente”.

Mas quê! Lula, de fato, deu as caras por lá. Mas o povo faltou ao enterro de sua quimera. Oficialmente, os organizadores falaram em 15 mil pessoas. Quem entende no riscado sabe que, com boa vontade e largueza de espírito, poder-se-ia falar em perto de… três mil pessoas. Essa era a massa que pedia “Fora, Temer” e “Dentro, Lula” na Paulista, que teve trecho considerável fechado nos dois sentidos. Os valentes resolveram atravessar uma espécie de carreta pegando ambos os lados da avenida. Já que nem a tradicional clientela da esquerda compareceu, o negócio é forçar a barra.

Lula discursou. Pediu eleições diretas, criticou o juiz Sérgio Moro, falou mal da Lava Jato e disse que não há procurador mais honesto do que ele próprio. Bem, conhecemos essa conversa. Como se estivesse preocupado apenas com o Brasil, não com seu próprio destino, sonhou: “O país só tem um jeito: é a gente ter uma eleição direta e eleger um presidente que tenha coragem de olhar na cara do povo”. Repetindo discurso de entrevista que concedera antes, transmitida pela Internet, fez de conta que não foi o seu partido que conduziu o país à ruina e mandou ver: “Quando o pobre é incluído no mercado e no orçamento da União, a economia vai crescer”.

E Lula tem uma conhecida explicação para a condenação:
“Como não conseguem me derrotar na política, querem me derrotar por processo. Nenhum deles é mais honesto do que eu nesse país.”

Claro, claro!

A presidente do PT, a senadora-ré Gleisi Hoffmann (PR), soltou uma de suas pérolas. Afirmou que os bens de Lula bloqueados pela Justiça foram amealhados ao longo de uma vida, correspondendo ao que Moro ganharia em um ano. Para lembrar: a multa aplicada pelo juiz foi de 16 milhões. Só em dinheiro, Lula tem indisponíveis, no momento, R$ 9 milhões que estavam aplicados em previdência privada e R$ 606 mil que estavam em conta corrente.

Talvez isso ajude a explicar por que poucos se atreveram a passar frio por Lula.

Lula entendeu o que quis dizer Augusto dos Anjos com “a mão que afaga é a mesma que apedreja”. Até porque, ele próprio, ao longo da vida, fez as duas coisas como ninguém. Afagou ex-adversários que antes havia apedrejado porque se renderam a seu poder. Apedrejou ex-aliados que antes havia afagado porque ousaram demonstrar alguma independência.

O Lula condenado, nos termos em que foi, é, em muitos aspectos, vítima de sua própria concepção de mundo.

E, mesmo sabendo que a terra está devastada para todos, há muito menos gente disposta a ouvi-lo do que ele imaginava.

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