Que Bolsonaro e Gleisi olhem Charlottesville: o ódio não precisa ser majoritário para matar

E há violências, meus caros, que não precisam de tiros, incêndios, atropelamentos, confrontos de rua. É o caso do discurso dos supremacistas, dos neonazistas, dos xenófobos, dos homofóbicos, dos, como poderemos chamar?, “alterfóbicos”

Publicada: 14/08/2017 - 7:14


Gleisi, James Fields e Bolsonaro: é preciso tomar cuidado com o discurso do ódio

Querem saber? É grande a possibilidade de Donald Trump ter ficado sabendo agora que existiu um tal general Robert Lee. E creio mesmo estar fora do seu registro a determinação de alguém de matar ou morrer por alguma causa. Talvez seja sua única qualidade intelectual… Lembram-se de Gary Johnson, o candidato dito libertário, quando lhe fizeram uma pergunta sobre o massacre da população civil de Aleppo, na Síria? Indagou: “Mas o que é Aleppo?”. Trump já perguntou “o que é Aleppo?” algumas dezenas de vezes desde que é presidente: e o fez na economia, na política interna, na política externa, no comércio internacional…

O fato de ser essa figura, digamos, singular, não justifica a baixa temperatura de sua reação. Pensemos.

Há formas violentas — e erradas — de reivindicar direitos, melhoria de vida, mudanças da legislação etc. Têm de ser condenadas, e seus promotores, punidos. Aqui, nos EUA ou em qualquer lugar. O fato de os meios estarem errados não implica que os fins sejam condenáveis.

Acho, por exemplo, que o lugar de Guilherme Boulos, do MTST, é a cadeia não porque ele lute por moradia, mas porque apela a esse propósito, bom em si, para naturalizar a truculência; porque faz do crime um instrumento de luta política.

E há violências, meus caros, que não precisam de tiros, incêndios, atropelamentos, confrontos de rua. É o caso do discurso dos supremacistas, dos neonazistas, dos xenófobos, dos homofóbicos, dos, como poderemos chamar?, “alterfóbicos”. E o mesmo se diga dos esquerdopatas. As suas convicções já são, por si, uma agressão à civilização, que se faz, necessariamente, da diversidade.

Como não olhar, com asco e horror, para o apoio que o PT e outros partidos de esquerda empenham hoje a Nicolás Maduro, na Venezuela? É como se James Alex Fields Jr., o atropelador de Charlottesville, estivesse no comando do país. Emir Sáder, intelectual petista, escreveu dia desses no Twitter que até pode haver alguns problemas naquele país, mas que é preciso apoiar o tirano para evitar a ascensão da direita. Para ele, os meios não importam.

É claro que essa extrema-direita boçal se sente representada por Donald Trump, que exercitou, durante a campanha eleitoral, um discurso rancoroso, preconceituoso, xenófobo, localista… E insisto: não estou certo de que soubesse ou saiba a extensão de algumas patacoadas que disse. Ele não é o representante de uma cultura política. Percebeu que dizia as suas barbaridades e que as redes sociais reagiam a contento — a contento, bem entendido, para as suas hostes e os seus propósitos.

Que os acontecimentos de Charlottesville sirvam de advertência ao deputado Jair Bolsonaro, aos extremistas de esquerda e às respectivas tropas da Internet sob o comando de cada ala. A pregação do ódio, da discriminação, da eliminação da divergência, do ataque às diferenças, da, em suma, intolerância não precisa ser majoritária para fazer cadáveres. Basta que alguém dotado de alguma autoridade pública resolva vocalizar as catacumbas do ressentimento, e as forças da destruição e da morte podem vir à flor da terra.

Entendeu, senadora Gleisi Hoffmann? Quando Vossa Excelência empresta seu apoio incondicional a Maduro, não está se alinhando com um aliado de esquerda contra a direita adversária apenas. A presidente de um partido está dando, na prática, apoio a um tirano e as suas milícias quando tratam seus adversários a bala.

Charlottesville não é regra nem nos EUA. Como exemplo do poder mobilizador do discurso do ódio, serve de advertência para todo o mundo. Inclusive para o Brasil.

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