BOLSONARO E A VIOLÊNCIA 2: A agressão física é só a etapa posterior da agressão moral. E, nesse particular, sua turma não tem competidores

Publicada: 11/10/2018 - 6:16


Fato: eleitores de Bolsonaro não têm hesitado em fazer ameaças a pessoas que não votam no candidato ou que a ele se opõem. Uma das criadoras do movimento “#EleNão” foi brutalmente espancada na porta de casa. Não é aceitável que diga: “É um cara lá que tem uma camisa minha, comete um excesso, o que eu tenho a ver com isso?”

Lamento dizer, mas tem, sim! Um político se torna politicamente responsável por aqueles que cativa. Tem o dever da palavra, da orientação, da exortação. De fato, ele não pode ser legalmente responsabilizado pelos atos de milhões de eleitores que o escolheram, mas as coisas que diz podem contribuir para a tolerância ou para a intolerância.

E isso que escrevo aqui, se lido com os olhos e com o cérebro, não com o fígado, é positivo para o próprio Bolsonaro. Ele mesmo foi vítima de alguém que, segundo testemunho à polícia, se sentia algo ameaçado pelo candidato. Sua sanidade mental é coisa para especialistas. Quantos são aqueles que, estimulados pelas hostes bolsonaristas nas redes sociais, podem se imbuir, vamos dizer assim, do que considera uma missão, a saber: silenciar os que são críticos do capitão?

O linchamento moral a que os bolsonaristas submetem nas redes sociais aqueles que não comungam de suas ideias, muito especialmente os jornalistas, não tem paralelo na história. E olhem que sei do que falo porque, durante um bom tempo, enfrentei praticamente sozinho a fúria dos petistas nas redes sociais. De A a Z, conheço todas as ofensas e todas as desqualificações. E, posso assegurar, ainda assim, estamos diante de algo inédito.

Ou Bolsonaro compreende que essa máquina virtual tem potencial para provocar grandes estragos na vida real e no ambiente da convivência democrática ou, certo como a luz do dia, não serão apenas seus adversários a ter problemas. Se eleito, a bomba vai cair no seu colo.

Bolsonaro daria uma contribuição enorme, p0r exemplo, se, ao recusar o convite ao diálogo feito por um adversário, ele simplesmente dissesse “não, obrigado!”. Em vez disso, preferiu chamar o oponente de “canalha”, como fez com Fernando Haddad.

Só esfaqueia o outro ou lhe dá uma garrafada na cabeça quem não reconhece nesse outro a humanidade necessária que lhe garante o direito à integridade. Ocorre que a agressão física costuma ser a etapa seguinte da agressão moral.

Bolsonaro pode ser o presidente eleito daqui a 17 dias. Tem de se comportar com a responsabilidade que essa condição exige.

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