Boulos e Bolsonaro: em que são diferentes o moralismo da extrema-esquerda e o moralismo da extrema-direita. Ou: O “demiurgo” e o “mito”

Publicada: 14/08/2018 - 16:03


Guilherme Boulos durante entrevista ao programa “O É da Coisa”, ancorado por este jornalista

Sobre o episódio envolvendo a Wal do açaí, escreve ainda a assessoria de Bolsonaro no Twitter:
“Se procurassem dos meus adversários 10% do que já procuraram de minha vida, achariam 1000% mais do que acharam. Quem sabe assim deixariam de encher linguiça nas matérias por não conseguirem mais do que um título subjetivo para derrubar quem não está no sistema!”

Não sei o que ele quer dizer com “títulos subjetivos”. Os fatos são objetivos. E, como se nota, na afirmação acima, vai aquela máxima de que “os outros pecaram ainda mais do que eu; logo, meu pecado é menor”. Ainda que isso fosse verdade para todos os adversários de Bolsonaro, há um primeiro óbice a tal leitura: isso, por si, justifica a sua própria falha?

Mas esse é apenas o primeiro e menos relevante. Vamos a outro: as demais candidaturas ao menos têm o bom gosto, em meio ao desalento meio generalizado, de não se colocar como vestais da moralidade. Não ancoram o seu pleito na máxima de “eu sou mais decente do que você”. Sim, há um Guilherme Boulos (PSOL) que denuncia, para ser genérico, a podridão do sistema político e a suposta captura do Estado pelas elites, razão por que seria necessária uma ruptura com a ordem instituída até aqui etc. e tal. Todos conhecem a catilinária esquerdista. Digamos que se trate de uma espécie de leitura moralista da história, que pode ser igualmente nefasta a depender da virulência política que assuma tal postura. Mas não se trata de um confronto de biografias.

Com Bolsonaro e seus seguidores, a coisa é diferente. Boulos não é o super-homem de uma aventura pessoal, mas uma espécie de demiurgo da revolta ou autonomia daqueles que considera os oprimidos. Acertarão todos aqueles que concluírem que ditaduras contemporâneas, como a da Venezuela e a da Nicarágua, têm, em sua raiz, justamente esse postulado. Ora, se sou o porta-voz dos oprimidos e se meus adversários já causaram tanta dor, miséria e sofrimento, que importa que, na reação, a gente provoque também alguns estragos? Romper o ciclo de exploração e miséria supõe alguma dor. Assim se justificaram moralmente as ditaduras de esquerda. Boulos é o instrumento de uma suposta narrativa coletiva. Sim: há milhões de votos de distância entre eles. Explica-se: a extrema-esquerda chama para a luta. A extrema-direita diz: “luto por você”. Uma pede militância. A outra pede crença. Ninguém moraria numa barraca de lona preta por Bolsonaro ou contra a “ideologia de gênero’. Mas é possível fazê-lo em favor da moradia, do socialismo ou contra os burgueses. Mas a adesão cai drasticamente.

A perspectiva da extrema-direita é outra, como se vê. Bolsonaro é oferecido como o “mito” Individual, o “cavaleiro sem mácula”, o “herói guerreiro”. Assim, uma mancha na sua biografia pessoal, justamente no quesito mais importante na construção do (falso) herói, acaba representando um peso. É como ser flagrado, para usar uma expressão corrente, de calças curtas. E foi. Ainda que algo semelhante se descubra sobre Boulos, o estrago é menor. Em primeiro lugar, porque seu público é bem mais reduzido. Em segundo, porque não erige a sua imagem na fama de incorruptível — embora certamente assim se queira —, mas no porta-voz de uma redenção coletiva.

É pouco provável que a evidência inequívoca de que Bolsonaro pagava despesas pessoais com dinheiro público diminua o apoio de seu eleitorado cativo. Ao contrário até: nessas horas, mecanismos de defesa são acionados. “Nossa cidadela está sob ataque; vamos proteger a rainha”. Como fazem as abelhas. Como fazem as formigas. O bolsonarismo é feito de soldados que reagem à menor movimentação estranha. Mas seus, por assim dizer, estrategistas sabem que o patrimônio eleitoral de que dispõe até agora ainda é insuficiente para a vitória. Ele terá de conquistar mais gente, tem de ganhar a adesão de indecisos.

E aí a coisa se complica um pouco. Afinal, um mito não pode ser flagrado enfiando a mão em dinheiro público para pagar os caseiros. Sim, o dinheiro, em si, é pequeno. Mas toda falha moral, por mínima que seja, é enorme quando se tenta construir, do nada, a biografia de um gigante sem história.

Daí vem o desespero bolsonarista.

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