Chanceler de Bolsonaro crê no “Deus de Trump” e vê como decadentes capitalismo e democracia liberal; na raiz de tudo, há um intelectual islâmico

Publicada: 15/11/2018 - 2:53


O escritor e polemista Olavo de Carvalho afirmou dia desses que poderia ser embaixador do Brasil em Washington. Para, disse, ajudar o Brasil a ganhar dinheiro. Parecia haver certo tom de pilhéria, mas nunca se sabe… De qualquer modo, conseguiu mais do que isso: emplacou um discípulo seu no Ministério das Relações Exteriores: Ernesto Araújo. Consta que o diplomata foi seu aluno. Se não foi, tanto faz. Carvalho é a inspiração.

Araújo tem uma página pessoal: “Metapolítica 17”, que tem uma palavra de ordem gravada junto ao título: “Contra o globalismo”. Ele se apresenta sem tons de cinza:
“Sou Ernesto Araújo. Tenho 28 anos de serviço público e sou também escritor. Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista. Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anti-cristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história.
Obrigado pela sua atenção a este blog”
.

A tese de que existe uma aliança entre a ideologia globalista — capitalista — e o marxismo cultural, que tem como consequência a destruição das culturas nacionais e dos valores tradicionais é hoje a essência da pregação de Carvalho em livros nas redes sociais.

Aluno formal ou não, Araújo mostra-se um bom aprendiz. Esse é o homem que, segundo Jair Bolsonaro, vai tirar o viés ideológico do Itaramaraty. A coisa tem lá a sua graça, mas é assim. Vamos ver o que isso que vai acima vai significar na prática no comércio com a China — afinal, um país globalista, suponho —, com a União Europeia, não menos, ou com o Mercosul. No ano passado, o Brasil obteve um superávit na balança comercial de US$ 67 bilhões. Desse total, US$ 20 bilhões se deveram às relações comerciais com os chineses, que hoje travam uma batalha por mercados e influência com os EUA.

E aqui chegamos a outro marco interessante. Araújo escreve um artigo coalhado de citações muito nobres intitulado “Trump e o Ocidente”, publicado na revista “Instituto de Pesquisa em Relações Internacionais”, órgão vinculado ao Itamaraty. No resumo do trabalho, lê-se:
Trump propõe uma visão do Ocidente não baseada no capitalismo e na democracia liberal,mas na recuperação do passado simbólico, da história e da cultura das nações ocidentais”.

O diplomata oferece a Trump uma experiência certamente única: compartilhar um parágrafo com Ésquilo e Spengler. Escreve Araújo:
“A visão de Trump tem lastro em uma longa tradição intelectual e sentimental que vai de Ésquilo a Oswald Spengler, e mostra o nacionalismo como indissociável da essência do Ocidente. Em seu centro, está não uma doutrina econômica e política, mas o anseio por Deus, o Deus que age na história. Não se trata tampouco de uma proposta de expansionismo ocidental, mas de um pan-nacionalismo. O Brasil necessita refletir e decidir se faz parte desse Ocidente”.

Lendo a íntegra, não se vai depreender muito mais do que isso. Trump encarna a salvação de um Ocidente que, segundo o autor, está menos ameaçado pelo terrorismo do que pela perda de seus valores, pela distância de Deus — sim, Deus, Eles mesmo — e pela burocracia dos Estados, que drenaria, sei lá, a energia vital dos cidadãos. Duvido que algum trumpista fanático tenha enxergado tais virtudes no homem. Mas Araújo viu.

Num dado momento de seu ensaio, escreve:
Se olharmos a cultura como algo orgânico, e não mecânico, numa perspectiva simbólica ou mítica em seu mais alto sentido — tal como pedia Spengler, tal como pede Trump —, veremos no economicismo e no liberalismo sinais claros de decadência, de declínio da cultura, e não de progresso. O Ocidente que Trump quer reviver e defender não se baseia no capitalismo nem numa democracia liberal desnacionalizada (…). A democracia liberal tal qual praticada na Europa e nos EUA até o governo Obama não se mostrava capaz de nutrir essa dimensão simbólica”.

Acharam pouco? Vem mais:
“Esse Deus pelo qual os ocidentais anseiam ou deveriam ansiar, o Deus de Trump (quem alguma vez imaginou que leria essas palavras, ‘O Deus de Trump’?) não é o Deus-consciência-cósmica, ainda vagamente admitido em alguns rincões da cultura dominante. Nada disso. É o Deus que age na história, transcendente e imanente ao mesmo tempo”.

Não, meus caros, vocês não estão lendo trechos do manifesto de fundação do Hamas. Qualquer fundamentalista islâmico adotaria essa visão de mundo, desde, claro, que adaptado a seu Deus.

Não por acaso, diga-se, no ensaio, Araújo cita, como referência positiva de crítica à decadência ocidental ninguém menos do que René Guénon, intelectual francês que acabou se convertendo ao islamismo, mais propriamente ao sufismo, sua vertente mística.

Antes de ser quem é, Carvalho foi guenoniano. Pesquisem a respeito. O que vai acima não é, a rigor, Carvalho, Spengler ou Araújo. É Guénon.

Sim, e tudo muito estranho.

Se o Itamaraty continuar a fazer o seu trabalho, independentemente do que pense o chanceler, ok. Ele que escreva seus artigos. Se resolver pôr em prática suas ideias, não há risco de dar certo.

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