Huck é o candidato dos plurais anônimos que se transformam nas fontes principais do jornalismo que faz assessoria

Publicada: 09/02/2018 - 7:59


Certo jornalismo em rigoroso trabalho de apuração. Vergonha alheia!

O plural sem nome e sobrenome é a personagem mais importante da política brasileira nestes tempos de abelhudos e palpiteiros. As fronteiras entre a imprensa profissional e as redes sociais foram se desfazendo. Com frequência, achismos fantasiados de análise e reportagens ancoradas apenas em declarações em off atribuem aos tais plurais anônimos opiniões sobre isso e aquilo. Assim, ficamos sabendo que “os mercados” veem com bons olhos a eventual candidatura de Luciano Huck. Já “os empresários” e os “os banqueiros”, bem…, estes não estariam apostando muito no taco de Geraldo Alckmin, cujos “assessores” estão, obviamente, descontentes com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que decidiu patrocinar a candidatura do apresentador…

A política assume, assim, um ar de permanente conspiração. Não aparece ninguém para, enfim, dar a cara ao tapa ou ao elogio. Essa transformação da mera fofoca em notícia ou “apuração de bastidores” se transforma num solo fértil para o embuste — ainda que venha recheado de boas intenções e de palavras suaves.

O apoio de FHC à eventual candidatura do apresentador Huck à Presidência — leio as palavras que acabo de escrever e confesso que experimento aquela sensação da vergonha alheia — tem ao menos a virtude, e só esta, de ser explícito. Vem com nome e sobrenome. Quando se atribui a plurais anônimos este ou aquele pensamento, esta ou aquela avaliação, fiquem certos: queira ou não, o jornalista está a serviço de algum estrategista de campanha. Pode nem ter clareza disso. Não significa que esteja atuando a soldo. Mas, obviamente, todo jornalista sabe quando está plantando não a informação, mas as impressões e esfera de sensações que a fonte lhe soprou aos ouvidos.

É assim que está se construindo a dita “candidatura de Huck”. Que já vem a público dando truques na Justiça. Na defesa apresentada ao TSE em representação do PT ao tribunal contra o apresentador e a Globo por propaganda eleitoral antecipada, o marido de Angélica diz que não será candidato em 2018, embora, evidentemente, ele se comporte como quem pretende disputar. Seu aparato está em ação.  Até para esfriar a reação de potenciais adversários, cumpre negar a candidatura, safando-se, adicionalmente, de eventuais punições.

Assim, temos um óbvio pré-candidato que diz não sê-lo, embora “pessoas próximas” — olhem o plural anônimo aí — assegurem que ele, de fato, tem essa pretensão. A imprensa, nessas horas, passa a atuar como assessoria do apresentador, o que, convenham, é um pouco constrangedor. Um trabalho de apuração requereria outra coisa: esmiuçar o esquema armado para fazer com que seu nome circule como uma possibilidade. Esses bastidores do “Mundo de Luciano” ainda precisam vir à luz.

Mas não e só a fofoca a favor do apresentador a lhe prestar um serviço involuntário — em alguns casos, voluntaríssimo, não se sabe com que contrapartida. Quando os tais plurais sem nome e sobrenome fazem críticas duras a Geraldo Alckmin, observem que se trata de alvejar aquele que é o seu primeiro adversário. O que está em disputa no campo da não-esquerda é o lugar da candidatura de centro. Essa é a primeira eleição que Huck teria de vencer. E isso requer mais do que esses mordomos invisíveis a serviço da sua postulação. Faz-se necessário também desqualificar aquele que seria uma espécie de adversário interno. Trata-se de uma espécie de prévias para ver quem ocupa o centro.

Sabem o que acho fascinante nisso tudo? O viés bem pouco crítico de algumas penas que gostam de se mostrar vorazes com os políticos. Quando se fala em Huck… Isso evidencia também uma compreensão rebaixada da democracia. Em tempos de Lava Jato, que demonizou todos os políticos e a política, tudo passa a ser permitido; tudo parece possível.

Assim, aqueles plurais desconhecidos não são vozes de pessoas, mas vozes de um tempo. E, creiam, é bem possível que nem tenham existência física. Afinal, convenham: quando se registra a opinião de “banqueiros”, de “investidores”, de “empresários” e de outras coletividades, onde está a força da apuração? No fato de que tais nomes permanecerão anônimos.  Existam ou não.

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