Maia e militares tentaram salvar Bebianno porque sabem que ele sabe demais, e esse saber, se à luz, inviabiliza a reforma

Publicada: 16/02/2019 - 7:32


Por que Rodrigo Maia (DEM-RJ), os militares e até o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), tentaram salvar a cabeça de Gustavo Bebianno? (foto) Sim, num governo de discípulos de Catão, o moralista, a demissão seria uma boa escolha. Mas, como se sabe, não é o caso. O esforço é compreensível por várias razões. É ele a memória da campanha eleitoral, com toda a sua fama, falsa como uma candidatura laranja, de “espartana”. Alguém acha mesmo que o aparato que foi montado nas redes socias é coisa simples e barata? O ministro por um fio se fez presidente temporário do PSL por exigência de Bolsonaro. E sabe como se fizeram as salsichas. Parte delas pode nem ter sido produzida no Brasil.

A raiz do cálculo dos que se mobilizaram para manter Bebianno se resume nesta frase: “ele sabe demais”. E está sofrendo um processo de humilhação pública sem paralelo na história. Sei lá que entendimento ele poderá estabelecer com o presidente que compense o enxovalho — hoje, o ministro é hostilizado também pelos bolsonaristas fanáticos, que acreditem que seu líder não se deixa tocar por mundanidades. Há o risco de Bebianno evidenciar o contrário.

Ao pôr o ministro na rua, é claro que Bolsonaro está a dizer: “Não tenho nada com isso”. Mas não terá mesmo? Não há nem suspeita nem evidência de que o ministro tenha embolsado a grana dos candidatos laranjas. Livre que era para destinar e gastar recursos, pergunta-se: e se parte da grana conhecida foi parar na campanha do agora presidente?

Avancemos. Pode-se dizer o diabo de Bebianno, mas sempre se comportou como um bolsonarista fiel. E completamente entregue à causa. Tanto é assim que despertou a ciumeira nos filhos, particularmente em Carlos, o já famoso “Carrrrrluxo” das redes sociais, na expressão de Leo Índio, seu primo e seu olheiro no Palácio do Planalto. Por lá transita com crachá de fino trato, mas não tem cargo. Bolsonaro demonstra como é rala a sua lealdade. E está apostando alto: “Se Bebianno fica, viro refém dele; se sai, é boa a chance de que fique quieto ou vai se complicar também”…

Pois é. O presidente está apostando que Ministério Público e Polícia Federal vão dar aquela mãozinha e não vão chegar a lugar nenhum… Mas vai que se descubra alguma coisa ruim de Bebianno e que alguém tenha a ideia de lhe oferecer uma delação premiada, como virou moda na Terra de Santa Cruz…

Mais ainda: precisando de votos para a reforma da Previdência; vivendo um momento delicado em que o governo tem de buscar apoios, não de dividir o próprio exército; com as reações às mudanças já se desenhando no horizonte, a família Bolsonaro atua com esse desassombro, dando tiro na nuca de um aliado de primeira hora. Pergunta-se: caso a reforma seja aprovada com sucesso, animando os mercados, com impulso importante na economia, qual será o comportamento do presidente? Se, com base ainda incerta no Congresso, vê-se uma execução clânica e sumária de um aliado, como se comportará o chefe do Executivo se lograr o seu propósito?

Ser um aliado de Bolsonaro, como se vê, pode ser coisa muito perigosa.

E olhem que as lambanças no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro ainda não estão devidamente precificadas. Nem os seus flertes com as milícias. Nesse caso, como se sabe, o pai ficou longe de “dar um couro” em seu rebento. Chamou o problema para si e disse que estão “perseguindo o garoto”.

Aliados de primeira hora de Bolsonaro podem ter uma vida muito curta. Imaginem, então os que são vistos como simples agregados… Bolsonaro não lê Augusto dos Anjos. Mas os que hoje lhe fazem mesuras devem olhar Bebianno: o beijo é mesmo a véspera do escarro.