PSDB 1: Goldman não é braço de Aécio; Temer não interfere; o problema está no “Nós X Eles”

O presidente interino da legenda nunca foi do grupo político do senador. Pergunta: com quais instrumentos Temer poderia operar? O PSDB está prestes a deixar a base, como todos sabem. As questões são bem outras

Publicada: 10/11/2017 - 0:11


Alberto Goldman e Marconi Perillo: novo presidente interino e um dos candidatos a comandar o PSDB

O senador Aécio Neves destituiu, e o estatuto do partido lhe permite, o senador Tasso Jereissati (CE) da presidência interina do PSDB. Assume o lugar o ex-governador de São Paulo Alberto Goldman, vice-presidente da legenda. Leio aqui e ali duas coisas que não procedem, que são falsas como notas de RS 3:
a: Goldman é do grupo de Aécio. Mentira! Não é, nunca foi;
b: a mão do Planalto está na origem da mexida. Mentira! Com quais instrumentos Temer poderia operar? O PSDB está prestes a deixar a base, como todos sabem. As questões são bem outras.

Goldman presidirá o processo que vai definir o futuro presidente da legenda: ou o próprio Tasso ou Marconi Perillo, governador de Goiás, cuja candidatura ao posto foi lançada há mais de um ano. A intervenção de Aécio foi feita em nome da isonomia na disputa, argumento que se sustenta, sim, já digo por quê. Mas é claro que há muito mais.

De que lado estou na disputa tucana? Se eu fosse tucano, teria lado. Como não sou, opero, mais uma vez, com a lógica e com algumas questões que considero relevantes em política.

Tasso se tornou presidente interino do partido em maio. Quando isso aconteceu, não se tinha a expectativa de que pretendesse disputar o comando. A vontade foi surgindo. Ocorre que ele decidiu, fiel a um conhecido estilo autocrático, ser mais do que um homem de transição. Também agiu. Nem bem esquentou a cadeira, resolveu, ainda que com cabeça branca, assumir a vanguarda dos ditos “cabeças pretas”, os “xóvens” tucanos que pregam o rompimento com o governo Temer.

Mais um pouco: fez movimentos abertos, largos, para tentar convencer Rodrigo Maia (DEM-RJ) a dar, vamos dizer, um “by pass” em Temer. Não escondeu isso. E ele o fez em nome do partido? Não! Ele o fez em nome do partido… partido.

Os ditos “cabeças pretas” querem o rompimento ancorados em que teoria? Em nenhuma! Pode-se fazer política sem uma teoria do poder? Claro! Há os empiristas empedernidos, e só uma coisa pode distingui-los do mais arregaçado oportunismo: a eficiência na ação. É o caso? Não é. Convenham: essa turma, hoje, quer mais é fugir da reforma da Previdência, por exemplo. Seu apego ao tema, posto na vitrine, não vale R$ 1,99. Pretendem acenar ao eleitorado com amanhãs sorridentes e acham que o governo Temer, que lhes lembra que a realidade existe, atrapalha.

Os votos da bancada da Câmara nas duas denúncias contra o presidente Temer evidenciam que o partido está mesmo rachado, dividido. Na primeira, foram 22 a 21 em favor do presidente; na segunda, 20 a 23 contra. Eis um sinal de que Tasso não logrou conquistar a hegemonia que ele imaginou.

Diretórios estaduais também sentiram o efeito da ação do interino, como os do Acre, Bahia, Maranhão e Pernambuco. É evidente que quem está no comando da sigla tem mais facilidade para, vamos dizer, interferir nas conformações locais e, assim, fazer uma espécie de reserva de votos para si mesmo quando se é candidato. E ele é. Mas foi só isso? É claro que não.

A ala, vamos dizer, governista se sente hostilizada pelo atual comando, que resolveu ignorar lideranças de peso do partido — e, por óbvio, entre estas, contam-se ministros de Estado, a saber: Aloysio Nunes (Relações Exteriores), Bruno Araújo (Cidades) e Antônio Imbassahy (Relações Institucionais).

Não que a permanência dos tucanos na Esplanada pareça destinada a durar muito tempo. Os demais partidos da base pressionam em favor de uma reforma ministerial, que poderia até ser empurrada com a barriga não tivesse a Previdência voltado a ganhar urgência. O próprio Perillo, que vai disputar o comando com Tasso, admitiu que a saída será necessária. Um pouco de habilidade teria bastado.

Em vez disso, preferiu-se um jogo do “Eles contra Nós”. Feita a intervenção, Tasso resolveu dizer que o seu PSDB não era o de Aécio e Marconi, o “deles”, mas o de FHC, José Richa, Franco Montoro, Mário Covas… Ok. Felizmente, há o vivo e brilhante FHC. Infelizmente, há honoráveis mortos na lista. E há também a memória.

Tasso já presidiu o partido duas vezes: de 1991 a 1993 e de 2005 a 2007. Governou ainda o Ceará outras três: 1987-1990, 1995-1998 e 1999-2002. Com esse peso no partido, como esquecer?, em 2002, ele apoiou a candidatura de Ciro Gomes à Presidência, deixando na mão José Serra, que era o nome da legenda que ele comandara. Ciro, um ex-tucano, disputava, então, pelo PPS, apresentando-se como adversário ferrenho de FHC, de quem dizia cobras e lagartos — e diz até hoje. Em 2003, o candidato para o qual fizera campanha foi ser ministro de Lula.

Aquele foi o ano da primeira vitória do petista e de uma série de quatro do PT. As razões foram as mais variadas. Uma delas, certamente, estava relacionada à incapacidade do PSDB de construir a unidade partidária. Unidade que o senador não buscou de novo neste 2017.

E, claro!, há outros fatores a levar em consideração, como a reação meio abestada do partido diante da Lava Jato. Obviamente, não faz sentido que seja o PSDB a legenda mais afetada pelo lado destrambelhado na Lava Jato. Mas assim são as coisas. E ainda há um pouco mais a dizer.

 

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