Tentar conter a porra-louquice da direita xucra que cerca Bolsonaro não é nem fácil nem difícil; é inútil; é só o que sabem fazer

Publicada: 17/02/2019 - 5:36


O generalato que integra o governo e algumas lideranças políticas empenhadas na reforma da Previdência acreditam que o presidente Jair Bolsonaro vai colocar ordem na bagunça e silenciar os “garotos”. É uma ilusão. É por isso que sugeri que a única coisa a fazer é isolar o próprio Bolsonaro. Gustavo Bebianno ainda nem foi demitido, e a ala composta pela inexperiência porra-louca já evidencia que tem muito mais crise a oferecer.

Bolsonaro nomeou como seu assessor especial para a área internacional um extremista de direita de Facebook chamado Filipe Garcia Martins Pereira, que se assina, nas redes, Filipe G. Garcia. A sua maior qualificação para a função é ser aluno do autointitulado “professor de filosofia” Olavo de Carvalho, que inventou, e é preciso lhe reconhecer o mérito, a versão contemporânea do “Madureza”, aquele curso por correspondência que conferia diplomas de “ginásio” e “colégio” a jovens e adultos por meio de testes de múltipla escolha. Agora, o meio é a Internet, e o “aluno” só tem uma escolha: tornar-se especialista em “olavismo” — seja lá o que isso queira dizer. Na prática, estamos vendo como funciona.

Amigo dos filhos de Bolsonaro, Filipe reproduziu nesta sexta, no seu perfil no Twitter, um trecho do Salmo 127, que é atribuído a Salomão. Segue na versão que ele caçou na Internet:
“Eis que os filhos são herança da parte do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão. Como flechas na mão dum guerreiro, assim os filhos da mocidade. Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava; não serão confundidos, quando falarem com os seus inimigos à porta”.

Estudem a respeito. O Salmo 127 é voltado para a vida privada. Na primeira parte, Salomão trata da primazia de Deus. Se Ele não guarda a casa e a Cidade — Jerusalém —, todo esforço é inútil. Até porque o Senhor provê aqueles a quem ama enquanto dormem. Na segunda parte, trata da família e exalta os filhos como uma recompensa divina a proteger o pai.

Presidência da República não é assunto privado nem empreitada familiar. Mas assim está sendo entendida pelo clã e por aqueles que decidiram se oferecer como seus pensadores.

Acreditem: vem muita trapalhada por aí. Se o assessor põe um troço desse na Internet — que distorce o sentido do Salmo em questão e da própria democracia —, é de se supor que o faça com a autorização do chefe. Ou melhor: seria. Aposto que Bolsonaro nem ficou sabendo. O que, em Salomão, é um saber sobre a vivência da vida privada se transforma numa espécie de convite à guerra santa contra os inimigos.

Ignorância arrogante.