Traje escalafobético de Bolsonaro é marketing ruim da simplicidade; não é que não entenda de moda: ele nada entende é de democracia

Publicada: 17/02/2019 - 6:53


Na quinta-feira, Jair Bolsonaro recebeu no Palácio da Alvorada os ministros e autoridades do governo que estão envolvidos com a reforma da Previdência (foto). Usava uma calça tactel azul, uma camiseta pirata do Palmeiras, um blazer que não combinava nem com uma coisa nem outra e chinelos modelo slide, que não só deixam os dedos à mostra como os projetam. O conjunto era a visão do inferno em matéria de estilo. Simplicidade? Descontração? Humildade? Não! Nenhuma dessas coisas. O que se fazia era o marketing da rusticidade, como a evidenciar que ali estava um homem do povo, que não se importa com códigos, regras, etiqueta. Caia na conversa quem quiser. Encaro aquele conjunto como evidência de desrespeito.

Não é a primeira vez que a personagem confunde grosseria com autenticidade. Quando está na ala residencial do Palácio da Alvorada, ele se vista como quiser. Se achar conveniente andar de cueca de bolinhas e meias pretas três-quartos, isso é lá com ele e dona Michelle, sua mulher. Se tiver um pijama com o rosto do Pateta, idem. Mas que tenha decoro ao se encontrar com ministros de Estado. Ate porque o tema da reunião nada tinha de assunto privado, não é mesmo? Tratava-se de arbitrar uma proposta, a ser submetida ao Congresso, que vai alterar a vida e a rotina de muitos milhões de brasileiros.

“Est modus in rebus”, ensinou o poeta. Há uma medida nas coisas. Inexiste um “dress code” para receber autoridades ou outras pessoas quaisquer no Palácio da Alvorada. Mas há uma palavrinha que designa algo que antecede códigos de vestimenta ou de conduta: chama-se “decoro”. Remete à conveniência, à decência, à pertinência. Bolsonaro representa o conjunto dos brasileiros. Ainda que eles possam eventualmente considerar elegantes aqueles modos, alguém tem de lhe dizer que são, na verdade, ofensivos. Correspondem a dizer um solene “não estou nem aí para vocês e me visto como quiser porque sou presidente da República”.

Pergunta óbvia de resposta idem: alguém o viu naqueles trajes durante a campanha? Tenha sido esta a intenção ou não, o fato é que o presidente da República deixa claro que não dá a menor pelota para o poder civil, que é o que expressa a Presidência da República, ainda que temporariamente ocupada por um capitão reformado, tendo um general como vice. Outra pergunta elementar: se tivesse convidado para um papo no Alvorada os três comandantes militares, ele os receberia daquele jeito molambento? Duvido! E não que eu o esteja desafiando a fazê-lo. Na verdade, eu o exorto a que não faça mais aquilo. Não vejo por que ele deva ficar exibindo os dedões do pé para o general Edson Leal Pujol. Se não para este, por que para os outros?

Não vale alegar que as dificuldades provocadas pela cirurgia impõem ao presidente um traje confortável. O conforto nada tem a ver com o desleixo marqueteiro. E o desleixo marqueteiro não guarda intimidade com o despojamento. A pobreza pode ser elegante. A riqueza pode ser cafona. Elegância e cafonice, claro!, lidam com valores, gostos, ondas influentes, subjetivismos etc. Sei de tudo isso. Mas há o puro e simples despropósito, como o conjunto apresentado. Não seria muito diferente se Bolsonaro estivesse usando um escafandro ou vestido de Indiana Jones. Um traje e outro estariam tão adequados à tarefa daquele dia como aquela composição impossível que veio a público.

Aquilo gritava: “Ninguém manda em mim; faço o que eu quiser; vocês têm de engolir as minhas esquisitices”. Convenham: era um traje compatível com a crise que ele e o filho Carlos criaram, não? Também nesse caso, há o triunfo da idiossincrasia sobre qualquer racionalidade. Ademais, se a ideia era se confundir com um homem do povo, Bolsonaro mandou mal também nesse particular: o brasileiro, na média, se veste bem melhor do que aquilo. Blazer com camisa de futebol e calça esportiva tactel? Ninguém comete essas sandices por aí.

Se o presidente quer mesmo ousar, talvez seja o caso de Michelle promover uma pesquisa sobre opções da moda “athleisure”, que leva para fora da academia a moda esportiva, mas com método. Aliás, peças antes usadas nos esportes já se imiscuiriam na vestimenta social. Combinações são possíveis e passam longe do horror. Mas não sou conselheiro de moda. Minha questão é a democracia.

Aquela vestimenta grotesca de Bolsonaro está a dizer que ele atropela formalidades. Ocorre que, na democracia de direito, a forma não é uma escolha, mas um princípio. É claro que aquela mistureba hedionda não é causa de nada. Na verdade, a composição escalafobética já é consequência de um pensamento torto sobre a ordem democrática e suas exigências decorosas.

Bolsonaro é a encarnação do poder do povo. E o nosso povo é bem melhor do que aquilo. Não cumpre ao presidente da República sugerir que somos piores do que somos porque ele resolveu fazer marketing pessoal, expondo ao público uma combinação que nem errada consegue ser.